Impactos da escassez da água no século XXI

Enviada em 29/06/2019

Na obra literária ‘‘O Quinze’’, marco do realismo brasileiro, a escritora Raquel de Queiroz narra a história de uma família de retirantes do sertão cearense. No enredo, os sertanejos - vitimados pela grande seca de 1915 - fogem da miséria do agreste em busca de sobrevivência. Ao traçar um paralelo com o século XXI, percebe-se que a escassez de água no Brasil ainda impacta negativamente a vida das pessoas, especialmente dos mais vulneráveis. Nesse sentido, em uma nação que sofre pela falta de disponibilidade de água, é necessário o debate acerca dos fatores que contribuem para essa problemática. Assim, é lícito afirmar que os efeitos da escassez de água no país ocorrem, ora em função da ineficiência estatal, ora pela postura egoísta de empresas do setor agropecuário.

Em primeiro lugar, evidencia-se, por parte do Governo, a ausência de políticas públicas que poderiam amenizar consideravelmente os impactos da seca no Brasil. Essa lógica é demonstrada pelo inexistente investimento financeiro em medidas como a perfuração de poços profundos e dessalinização da água marinha, que têm o potencial de oferecer uma saída para o problema secular. Com isso, o Estado ignora ações de redução dos impactos da seca, o que leva brasileiros do agreste a sofrer com a falta de água e, consequentemente, como na história de Raquel de Queiroz, migrar para outras regiões. Logo, é substancial a alteração desse quadro, que não recebe a atenção devida do poder público.

Outrossim, é imperativo pontuar que a conduta irresponsável das organizações que atuam no ramo agropecuário também é um ponto a ser levado em conta, no que concerne à utilização de uma vasta quantidade de água nos perímetros irrigados para agricultura. Prova disso é a matéria veiculada no UOL em janeiro de 2019, que mostrou que a média de utilização de água por grandes organizações desse setor é 70% maior do que a média de consumo hídrico residencial. Nota-se, assim, que a falta de consciência ambiental das empresas impacta na escassez hídrica no Brasil, dado que, a água que poderia ser direcionada para regiões do semiárido, torna-se objeto de interesse econômico  e lucro.

Infere-se, portanto, que Estado e setor privado devem trabalhar para minimizar os impactos da seca no Brasil do século XXI. Posto isso, o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS) deve, por meio da captação de verba ao Ministério da Fazenda, dar continuidade às obras hídricas paralisadas, como a transposição do Rio São Francisco. Além disso, o DNOCS deve também executar ações de média complexidade, como a perfuração de poços profundos em comunidades afetadas pela seca e aumento do número de caminhões-pipa disponíveis. Ademais, o Poder Legislativo, mediante projeto de lei, deverá determinar a empresas agropecuárias a redução do consumo de água em perímetros irrigados e indústrias. Dessa forma, os impactos da escassez de água serão superados.