Impactos da escassez da água no século XXI

Enviada em 27/09/2019

O romance “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, retrata a migração de uma família nordestina em busca de melhores condições de vida, perante um contexto de falta de alimento e água, para assim, poder viver dignamente. O século XXI, em muitos casos, por razões análogas às da família sertaneja, tem visto o número recorde de refugiados e imigrantes desde a II Guerra Mundial, como afirmado pelas Organizações das Nações Unidas (ONU). Porém, esse contingente pode ser ampliado em virtude de guerras por recursos hídricos. Sob tal perspectiva, fica patente que o deslocamento de massas e os confrontos bélicos são e serão frutos da seca, ou então, de sua iminência.

Primeiramente, contextualizado ao Brasil, percebe-se que, apesar da abundância de rios, lagos e lençóis freáticos, o Estado de São Paulo, nos anos de 2014 a 2016, enfrentou graves problemas em seus reservatórios, demandando expensas elevadas para transpor recursos, a fim de abastecer os cidadãos. No entanto, em países da africanos, por exemplo, não ocorre o mesmo. Consequentemente, a baixa produção de alimentos, a desnutrição e a seca afetam a população severamente, que, vendo-se obrigada a ter apenas 20 litros de água para viver, segundo dados da Unipacs, contrasta com a recomendação da Organização Mundial da Saúde, 50 a 100 litros, tornando-se, portanto, “refugiada do clima”. Acerca disso, a Somália teve 2,7 milhões de pessoas deslocadas, não somente por conflitos, mas também pela falta de chuva, conforme afirmado pela agência espanhola de notícias Efe.

Todavia, embora a imigração afete milhões de pessoas e os países que as recebem, disputas por recursos da hidrosfera poderão impactar fortemente a geopolítica global neste século. Retrospectivamente, a Guerra dos Seis Dias, em 1967, entre Israel e nações árabes, pelas colinas de Golã, onde está nascente do rio Jordão, ilustra como povos podem disputar o controle de regiões ricas em água potável. Entretanto, especialmente Egito, Uganda, Sudão e Etiópia podem sofrer graves tensões armadas pelo controle futuro da bacia do Nilo, que, por sua vez, é o maior rio da África setentrional, sendo um diferencial socioeconômico nesses territórios e, sobretudo, para quem o domina.

Por conseguinte, sobre os impactos oriundos da escassez neste século, impende ao Ministério das Relações Exteriores elaborar, junto a órgãos internacionais e demais Estados,  medidas que contemplem projetos de infraestrutura, como dessalinização de água do mar, fomentando, concomitantemente, o consumo consciente nas regiões do mundo mais vulneráveis. Ademais, a criação de uma reserva comum de recursos financeiros e de capital intelectual, capacitado a atuar na execução de tais projetos, será um mecanismo facilitador, pois, amenizará a probabilidade de guerras, revertendo, ao menos em parte, o complexo cenário histórico constatado pela ONU de imigração em massa.