Impactos da escassez da água no século XXI

Enviada em 22/11/2020

A animação brasileira “Uma História de Amor e Fúria” conta a trajetória de um homem que está vivo há 600 anos. Ele participa de diversas épocas marcantes do Brasil e o enredo foca em quatro grandes momentos, dentre eles, a crise hídrica, retratada em 2096. Nesse sentido, o enredo explora não é apenas a falta de água doce, mas sua futura distribuição. O recurso se torna um dos produtos mais cobiçados da sociedade e, com um valor elevado, o seu acesso fica restrito à população com melhores condições econômicas. Todavia, disputas pelo controle de rios e bacias hidrográficas transnacionais já são realidade e elevam a tensão em diversas partes do planeta. Isso provém do hiperconsumo contemporâneo que é responsável por significativo gasto de água. Dessa forma, o uso excessivo desse recurso perpetua a sua falta e contribui para situação de miséria e fragilidade social do homem.

Nesse contexto, é necessário salientar que o consumismo interfere diretamente para a escassez hídrica devido ao elevado gasto na produção de bens de consumo duráveis e não duráveis. Já que, para produzir uma calça jeans, por exemplo, são necessários 11 mil litros de água. Nesse sentido, o filósofo francês Lipovetsky defende que a sociedade pós-moderna é organizada no hiperconsumo, isto é, a busca pela felicidade por meio do consumismo, sendo preciso, então, criar formas de sustentabilidade e não apenas destruir os recursos naturais. Logo, são necessárias mudanças no sistema produtivo industrial para minimizar as chances de falta de água.

Ademais, devido a esse consumo excessivo de água, o contexto de exploração humana retratado no livro “Vidas Secas” de Graciliano Ramos torna-se atemporal. Na obra, o autor denuncia a miséria causada pela falta de água e a miséria imposta pela influência social representada pela exploração dos ricos proprietários da região. Analogamente, na atualidade, essa exploração se expressa na indústria da seca. Esse termo remonta ao clientelismo, já que elites regionais manipulam a distribuição de água de acordo com o seu interesse político, comum no Nordeste. Dessa forma, a escassez hídrica em determinadas regiões negligenciadas no Brasil afeta socialmente a população.

Portanto, é dever do Governo Federal implantar a água de reuso nas indústrias e residências. Isso deve ser feito por meio de parcerias do Ministério do Meio Ambiente e das Secretarias Municipais para a construção de obras de infraestrutura para a aplicabilidade da água de reuso, água proveniente de indústrias e até do esgoto doméstico, imprópria para consumo mas que pode ser tratada. Assim, poderá ser usada na refrigeração de equipamentos nas indústrias e em descargas de vaso sanitário nas residências, a fim de minimizar a captação desse recurso na natureza, além de aumentar a disponibilidade de água potável, sobretudo nos locais em que a sua distribuição é desigual.