Impactos da instabilidade política no Brasil

Enviada em 31/05/2020

O filósofo frances Jacques Derrida apreciava o conceito grego de ‘‘aporia’’ que, em tradução literal, significa ‘‘impasse’’. Em poucas palavras, o pensador acreditava que as contradições eram essenciais na construção de qualquer processo. No contexto político, assim como na concepção de Derrida, sempre existe confronto de opiniões, fator natural à realidade democrática; entretanto, em excesso, essa instabilidade é estritamente destrutiva porque retira os holofotes de questões essenciais e, sobretudo, impacta negativamente a qualidade de vida no país.

A priori, no espectro contemporâneo, os escândalos derivados da realidade política no país voltam a atenção para si e, por conseguinte, colocam em segundo plano questões também urgentes como o combate à violência, a proteção ambiental e, decerto, desvia a importante cobertura da crise do atual coronavírus, que deveria ser a preocupação mais sensível de qualquer país não obstante qualquer desentendimento político. Nesse sentido, é relevante a repercussão internacional desse paradoxo: a imprensa francesa, na sequência de jornais como o ‘‘Le Figaro’’ e o ‘‘Le Monde’’, não poupou esforços para divulgar a inaptidão do governo em lidar com o problema ambiental, no caso amazônico, e as mortes por COVID-19, com manchetes que ironizam a fala do presidente ‘’e daí?’’ como ‘’et alors?’’.

Ademais, paralelamente à instabilidade, cresce a insatisfação popular, com a qual o país tem muito a perder. Sob a luz dos fatos históricos, durante a ditadura de 1964, o educador Paulo Freire não foi o único a fugir da crise política que se alastrava pelo território nacional, o Brasil perdeu músicos, cientistas políticos e artistas que deixaram de enriquecer a causa brasileira. Analogamente, na modernidade, o fenômeno da fuga de cérebros (reportado pela EXAME e a BBC) denuncia as más condições da política nacional e o consequente decréscimo na qualidade de vida dos brasileiros, que precisam acompanhar conflito após conflito desde o recente impeachment, ainda em 2016, até o contexto contemporâneo.

Desse modo, medidas são necessárias para solucionar o problema. Portanto, por meio da criação de uma plataforma digital aberta ao público, o Congresso Nacional deverá dedicar, no mínimo, um terço das horas semanais em plenário à discussão de pautas escolhidas segundo a vontade popular que incluam temas menos políticos como decisões acerca da disponibilização de bolsas de pesquisa, ampliação de direitos ambientais, entre outros. Assim, o governo será obrigado a considerar mais do que apenas dissidências internas e, sob a luz da democracia, as preocupações populares mais urgentes e poderão ser devidamente avaliadas de modo a superar os impactos  insalubres da instabilidade política no país.