Impactos da instabilidade política no Brasil
Enviada em 03/08/2020
Logo nas primeiras páginas do seu livro As Veias Abertas da América Latina, o escritor Eduardo Galeano, ao analisar os processos de colonização, afirma de forma bastante forte que “alguns países nasceram para perder.” Neste contexto, não há como não traçar um paralelo com o Brasil, que parece viver a triste sina de perder oportunidades. Foi assim logo após a redemocratização com a eleição do Collor. Em 2018, após um ciclo de um governo marcado por tantas denúncias de corrupção, o momento acabou elegendo um projeto que, longe de se mostrar uma alternativa positiva, alimenta uma crescente instabilidade política que afugenta investimentos e traz consequências extremamente nefastas ao país.
Portanto, um ambiente tão conturbado acabou por prejudicar o objetivo mais urgente do país, que seria vencer a acachapante crise financeira pela qual vinha passando. Como resultado, reformas estruturais importantes não foram feitas a contento e o crescimento econômico foi tímido, e o desemprego cresceu como nunca. O país não poderia estar mais vulnerável à crise econômica que se seguiu, com a pandemia da COVID-19. Dados recentes do SEBRAE evidenciaram o fechamento de mais de setecentas mil empresas e a imprensa internacional constantemente acusa o Presidente Bolsonaro de ser o pior líder no combate à Pandemia. Tudo isso só aumenta a desconfiança do mercado internacional, que sinaliza que o pior da crise ainda está por vir.
Todavia, a atual instabilidade política e toda a problemática resultante nada mais é que uma consequência comportamento tradicional do brasileiro em relação à política. No Brasil as pessoas têm uma tendência a votar não por competência, mas por simpatia e identificação pessoal. Consequentemente, terminam por eleger típicos populistas com discursos de “salvadores da pátria”. Ato contínuo, dão mais atenção ao debate político em torno dos candidatos ao Executivo e desconhecem completamente os candidatos aos cargos do Poder Legislativo, que é tão importante quanto o Executivo. Isso promove uma total assincronia entre o Executivo e o Legislativo, inviabilizando a gestão, por conta de tantos conflitos de interesses.
Decerto, qualquer mudança concreta nesse quadro prescinde de uma profunda mudança de comportamento da população, que deve compreender não só o seu real papel, como também o das Instituições. Esta mudança não pode vir de outra forma, senão pela educação. Ou seja, o país precisa de um Ministério da Educação de fato preocupado não em fomentar guerras ideológicas, mas em formar cidadãos de fato, que vivam a boa política no seu cotidiano. Conceitos de cidadania e política precisam estar presentes na grade escolar desde o ensino fundamental. Desta forma, formaremos cidadãos conscientes, cada vez menos pretensos a aventuras autoritárias. Ainda há tempo.