Impactos da revolução tecnológica digital no mercado de trabalho
Enviada em 26/10/2019
No Brasil, em decorrência da falta de criticidade de muitos cidadãos, tornou-se corriqueira a compreensão de que a modernização no âmbito trabalhista não afeta drasticamente a dinâmica atual. No entanto, embora essa perspectiva permaneça no senso comum, negligenciando seus efeitos, é preciso notar o quanto esse ponto de vista é ingênuo ao possibilitar que o indivíduo se isente da culpa e aponte culpados.
Entendimentos como “a rapidez de inovação tecnológica causa desemprego estrutural” e “os cargos disponíveis exigem, cada vez mais, qualificação e estudos, coisas às quais nem todos têm acesso” podem parecer simplistas. Porém, mesmo que elementares, essas ideias sobre o mercado laboral hodierno ressaltam dados do IBGE, que indicam que 4,8% da população apta a trabalhar está desocupada, fato influenciado pela modernização. Em geral, quando a sociedade não se predispõe a assumir posturas críticas e sensatas, toda a atualização de valores fica propensa a exaltar padrões de conduta nocivos e desvirtuados que banalizam tal problema. Como se não bastasse, há de se atentar, também, à forma perniciosa como diversos segmentos sociais se comportam diante desse assunto, ao subestimar uma pesquisa da Hernessing Revolution, que indica que 80% dos brasileiros estariam dispostos a trabalharem de forma autônoma, em partes por conta da falta de vagas para empregos.
Por conta disso, no debate acerca da revolução laboral, é preciso enfatizar a urgência do investimento em um maior senso de corresponsabilidade coletiva. Dessarte, em consonância com as ideias da Teoria da Coesão Social, de Durkheim, e do poeta John Donne, não se deve perguntar por quem dobram os sinos, deve-se notar que dobram por todos. Desse modo, é possível evitar a proliferação de posturas meramente acusatórias que, além de desprezarem a atuação pouco eficaz ou inexistente de agentes públicos, também agenciam o aborto de sonhos e o assassinato de esperanças, ao passo que a automatização trabalhista destaca a carência de profissionais qualificados e o problema social relacionado à educação. Sob essa égide, mais do que se eximir da culpa para apontar culpados, os brasileiros devem atentar-se ao seu poder de ingerência e resolução.
Certamente, quando restrita a fatores inoportunos, qualquer iniciativa contra os efeitos negativos gerados pela mecanização trabalhista está fadada ao insucesso. Portanto, faz-se necessário que o Estado, por meio da parceria entre os Ministérios da Educação e de Ciência e Tecnologia, garanta ensino de qualidade integrado ao estudo relativo ao desenvolvimento tecnológico, mediante aulas no ensino médio, a fim de incentivar a qualificação futura desses alunos e gerar uma chance de inverter o paradigma contemporâneo. Afinal, parafraseando Heráclito, a mudança deve ser a base de tudo.