Impactos do isolamento social na saúde mental dos idosos durante a quarentena
Enviada em 03/08/2026
No conto “Viagem a Petrópolis”, da autora brasileira Clarice Lispector, é apresentada a personagem Mocinha, uma senhora que vive de favor no quarto dos fundos de uma família, em um quadro de vulnerabilidade física, mental e social. Mocinha acaba falecendo sozinha após ser abandonada em uma cidade desconhecida. Ao transpor o viés literário, nota-se o comportamente de desvalorização do idoso enraizado na sociedade, fator que, com o isolamento derivado da quarentena, agravou a necessidade de preservação da saúde mental da população idosa. Em vista disso, surge a necessidade de interverção estatal.
Diante desse cenário, nota-se que a falta de perspectiva social enfrentada deriva da aversão ao envelhecimento historicamente vivenciada no Brasil. Essa ótica pode ser exemplificada pelo êxodo rural, no qual, a partir de 1950, as famílias migraram para as cidades e passaram a viver em casas menores. O modelo antigo, em que várias gerações moravam juntas e o idoso tinha um papel produtivo no campo, ruiu. No entanto, não houve posição governamental para criação de rede pública de asilos, centros de convivência ou suporte domiciliar para preencher essa lacuna.
Ademais, é válido ressaltar que a postura de negligência estatal cria uma banalização da invisibilidade do envelhecimento populacional, o que desencadeia a formação da cultura de inferiorização desse grupo. Assim, torna-se inegável o impacto que a ausência de políticas públicas acerca da inserção do idoso no âmbito socioespacial acaba gerando. Tal panorama foi objeto de estudo do sociólogo Norbit Elias em seu livro “A solidão dos morimbundos”, no qual expõe que o indivíduo que deixa de produzir perde sua função e prestígio social sofrendo um grave processo de exclusão social. Logo, essa situação hostil precisa ser revertida.
Portanto, cabe ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, em parceria com as prefeituras municipais, criar o programa “Melhor idade”. Essa iniciativa deve ser viabilizada por meio do direcionamento de verbas orçamentárias específicas para a construção e manutenção de centros de convivência comunitários, locais onde terão atendimento psicológico contínuo, oficinas culturais e áreas destinadas ao lazer. Essa ação tem como finalidade reverter a omissão estatal e reintegrar o idoso ao convívio social, sanando assim o impasse.