Impactos do isolamento social na saúde mental dos idosos durante a quarentena

Enviada em 31/08/2020

Na obra “Utopia”, do escritor Thomas More, encontra-se o detalhamento de uma ilha, constituída por cinquenta e quatros cidades, que funcionava de forma perfeita e, assim, os utopianos, como eram chamados os habitantes desse local, desfrutavam de uma felicidade permanente. No entanto, quando se analisa os impactos decorrentes do isolamento social na saúde mental dos idosos durante a pandemia, nota-se uma realidade que não contempla a civilização ideal de More. Isso decorre da negligencia social diante da Constituição Federal, mas também pelo individualismo que impera na pós-modernidade.

Em primeiro lugar, conforme o filósofo Henrique de Lima, a sociedade se assenta em um enigma de uma civilização tão avançada em suas razões teóricas e, por sua vez, tão indigente em suas razões ética. Sob tal prisma, pode-se observar o cenário contraditório sobre o que é exposto pela Constituição Cidadã em relação à terceira idade e a realidade experimentada, principalmente, nesse momento de pandemia, por essa parcela da população. Prova disso é que apesar de a Carta Magna afirmar sobre o dever da família, da sociedade e do Estado de preservar a dignidade e o bem-estar do idoso, nota-se,  nesse período, por exemplo, a escassez de programas sociais destinados à saúde mental desse cidadão. Desse modo, um quadro que propicia o aumento de doenças psicológicas nessa faixa etária.

Ademais, segundo o sociólogo Zgymunt Bauman, a sociedade atual transferiu a ideia de progresso como melhoria partilhada para sobrevivência do eu. Nessa perspectiva, o sentimento individualista que tecei-a o comportamento do homem hodierno faz com que esse negligencia o bem-estar do outro. Seguindo essa linha de pensamento, ao analisar os programas culturais desenvolvidos durante o isolamento social, como as lives, percebe-se como esses reafirmam o pensamento de Bauman, uma vez que poucos desses foram pensados para satisfazer a terceira idade. Consoante a isso, uma população que reverbera o narcisismo dificulta a construção do bem-estar social.

Logo, é mister que o Estado intervenha nessa situação. Para tanto, faz necessário que esse órgão, mediante repasse de verbas governamentais, desenvolva políticas públicas a fim de preservar a saúde mental dos idosos. Nesse viés, tais programas serão desenvolvidos da seguinte forma: o governo promoverá projetos culturais, em parceria com o terceiro setor, como as lives, direcionados à terceira idade, em que esses contarão com a participação de artistas e de psicólogos, com objetivo de auxiliar esse cidadão durante a quarentena, por meio do entretenimento e de conselhos de como cuidar da mente. Assim, diante um corpo social que se posiciona, além de coibir o individualismo, permitir-se-á também  a construção de uma civilização que reverbera os utopianos.