Impactos do isolamento social na saúde mental dos idosos durante a quarentena

Enviada em 21/09/2020

‘‘Uma velha não pode comunicar-se’’. A frase faz parte do conto A partida do trem, de Clarice Lispector. Notadamente, a autora, ao narrar a viagem de Dona Maria, relata às questões envolvendo à terceira idade. Nesse sentido, a partir de tal conjuntura, é de uma importância analisar os impactos do isolamento social na saúde mental dos idosos durante a quarentena- forma utilizada para impedir os avanços da pandemia atual. Desse modo, verifica-se como ferramenta de tais efeitos, não só um sistema educacional deficitário, mas também a falta de efetivação das garantias constitucionais.

A princípio, o professor Paulo Freire dissertou sobre a pedagogia libertadora, uma alusão à educação crítica a serviço da transformação sociocultural. No entanto, ao perceber a desvalorização do idoso nas relações que permeiam o tecido social, nota-se uma sociedade distante da pedagogia de Freire. Tal comportamento revela-se pela prevalência de ações que denotam descaso, seja pela negligência de muitos com os efeitos da pandemia, dado que a OMS- Organização Mundial de Saúde- relatou que o vírus atingiria, principalmente, idosos, por exemplo. Dessa maneira, observa-se um sistema educacional deficitário, o qual não dialoga com as ideias freireanas e, portanto, não consegue formar cidadãos que sejam diligentes à preservação da saúde dos mais velhos.

Outrossim, a Constituição Federal explicita que é dever do Estado proteger o idoso. Entretanto, a realidade expõe uma contrariedade. Esse paradoxo expressa-se, na verdade, à medida que não há políticas públicas eficientes, com o fito de dirimir os impactos da quarentena na saúde mental dos idosos e, consequentemente, torna-se um ambiente favorável a doenças psicossomáticas, como a depressão. Nessa perspectiva, os fatos expostos ecoam o Enigma da Modernidade, do filósofo Henrique de Lima, o qual explicita que, apesar de a sociedade ser avançada em suas razões teóricas, é, por sua vez, primitiva em suas razões éticas. À vista disso, a dissonância entre a narrativa factual e os dispositivos constitucionais precisa ser solucionada.

Logo, é fundamental que o Poder Executivo, por meio do debate com o Ministério da Educação, realize uma reforma educacional, a fim de que haja a formação de indivíduos que valorizem o idoso. Posto isto, é importante que tal ação foque, sobretudo, nas ideias da pedagogia libertadora. Ademais, é imprescindível que o Terceiro Setor, aliado à mídia, crie campanhas publicitárias- mediante depoimentos de cientistas sociais- que expliquem a necessidade de o Estado desenvolver políticas públicas destinadas à terceira idade, com o intuito de efetivar as garantias constitucionais. Dessa forma, resolver-se-ão os impactos do isolamento social na saúde mental dos mais velhos e, por fim, obter-se-á um comportamento social que destoe do relatado, no conto, por Lispector.