Impactos do isolamento social na saúde mental dos idosos durante a quarentena

Enviada em 23/08/2021

O Estatuto do Idoso explicita que é um direito da família e do Poder Público assegurar às pessoas acima de sessenta anos o direito à vida, à saúde, ao lazer, à cidadania e ao respeito. Evidentemente, a violação de tais direitos está na rotina de muitos idosos, principalmente durante a pandemia de Covid-19, os quais tiveram a saúde mental abalada devido às negligências das instituições sociais e à crescente desvalorização destes. Desse modo, é fundamental tomar medidas cabíveis para atenuar a problemática.

Nesse viés, convém destacar o descaso enfrentado pela população idosa. A princípio, a população brasileira está inserida em uma mudança da pirâmide etária, contudo não está pronta para suprir as demandas da terceira idade. Segundo Simone de Beauvoir, em seu livro “A velhice”, os idosos da contemporaneidade lidam com condições que lhes foram impostas pela sociedade, tais como o etarismo - discriminação baseada na idade. Relacionando o pensamento da filósofa à atual conjuntura brasileira, é possível identificar fatores responsáveis pelo aumento da negligência durante a quarentena, uma vez que a família das pessoas idosas, despreparada para atender as necessidades destas, submete os indivíduos dessa faixa etária a abusos e condições precárias. Sendo assim, compreende-se a naturalização do tratamento inferior à população idosa.

Vale ressaltar, ainda, como a sociedade hodierna encara os direitos do idoso. Sob tal perspectiva, é necessário entender que a dinamicidade do mundo moderno exige efetividade na realização de tarefas diversas, discurso reforçado para desprezar a participação da terceira idade nas decisões coletivas. De acordo com Zygmunt Bauman, a modernidade líquida é ágil, pois está submetida à lógica capitalista de consumo. Assim, é possível associar as ideias do sociólogo ao discurso de isolamento vertical, difundido por figuras públicas negacionistas, visto que estas defendem o isolamento dos grupos de risco para a pandemia - predominantemente idosos - visando amenizar os impactos na economia, quando, na realidade, não protege tais grupos, uma vez que é comum ter nos núcleos familiares a presença de idosos. De tal maneira, entende-se o desprezo reforçado por figuras de autoridade.

Em suma, são perceptíveis os fatores responsáveis pelo declínio na saúde mental de idosos na pandemia. Portanto, cabe ao Ministério da Cidadania, em consonância com o Ministério da Saúde, a ampliação da saúde pública voltada para a terceira idade, por meio de um plano nacional de valorização dos idosos, visando atender as demandas dessa faixa etária na esfera da saúde com profissionais capacitados, tais como psicólogos e geriatras. Dessarte, será possível desfrutar de um cenário no qual a realização da medida proposta mitigou o etarismo, conforme garante o Estatuto do Idoso.