Impactos do isolamento social na saúde mental dos idosos durante a quarentena
Enviada em 23/08/2021
No livro “A peste”, escrito pelo filósofo francês Albert Camus, é retratado como uma crise sanitária pode trazer efeitos lamentáveis à sociedade, quebrando, inclusive, a ilusão de conforto proporcionada pela modernidade. Fora dos parágrafos da narrativa, o quadro exposto por Camus concretiza-se no cotidiano dos idosos, visto que, em virtude da pandemia causada pelo vírus COVID-19, foram obrigados a adotarem o isolamento social. Entretanto, essa medida não foi realizada de maneira correta, causando impactos na saúde mental desse grupo. Nesse contexto, não restam dúvidas de que essa problemática decorre tanto da negligência estatal quanto da invisibilidade midiática sofrida pelo tema.
Á princípio, vale analisar como a inércia governamental age como causa da vicissitude. Nesse sentido, segundo a Constituição Federal vigente, é dever do Estado garantir o bem-estar social de todos. Todavia, rompe-se com tal lógica constitucional ao verificar que os idosos não usufruem desse direito social em sua plenitude. Ocorre, portanto, um descaso estatal diante da situação, já que não há ações que contemplem o estado mental desse grupo minoritário –como assistência psicológica virtual ou incentivo à criação de salas de bate-papo digitais-, o que os obriga a experimentar a total solidão, elevando, pois, os índices de ansiedade e de depressão entre esses indivíduos.
Outrossim, é relevante mencionar a atuação da mídia como fator preponderante à manutenção da adversidade. Posto isso, conforme o sociólogo Zygmunt Bauman, na era tecnológica, a invisibilidade é equivalente à “morte”. À vista disso, observa-se que, em função de comportamentos individualistas, os principais meios de comunicação não divulgam a hostil realidade experimentada pelos idosos durante a pandemia –sentimento de insegurança frente ao futuro, além de serem negligenciados por seus familiares-, uma vez que essa temática não gera tanta relevância lucrativa. Por fim, ratifica-se o exposto por Bauman, pois, ao não ser denunciado o triste cenário enfrentado por esse grupo, a sociedade termina por não o perceber ou questioná-lo, fadando-o ao recôndito e consequente “morte”.
Por conseguinte, é notório que o debate acerca dos impactos à saúde mental dos idosos durante a quarentena é fundamental para a construção de um meio social igual e empático. Sendo assim, cabe ao Governo Federal, juntamente com as principais plataformas de rede social, estimular um maior engajamento da população, por meio da promoção de propagandas informativas sobre a importância de fornecer atenção a esse grupo durante esse período incerto, além de assistências psicológicas periódicas virtuais a quem necessitar, a fim de que essa parcela da sociedade possa usufruir de seus direitos ao bem-estar social e à saúde. Dessa forma, espera-se que o cenário de inquietudes exposto em “A peste” não corresponda mais ao contexto brasileiro.