Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 26/08/2019
No famoso livro “A Menina que Roubava Livros”, a protagonista órfã Liesel Meminger, após perder os pais, consegue ser adotada por uma família e foge de uma dura realidade em meio ao regime nazista de Hitler. Fora da literatura, a realidade enfrentada por milhões de crianças e adolescentes órfãos ao redor do mundo que precisam de uma família que lhes dê afeto não chegam a ter a mesma sorte que a personagem Liesel. No Brasil, principalmente, a questão da adoção é permeada por processos burocráticos e também excludentes, que terminam por dificultar o processo adotivo.
A princípio, é necessário dizer que o vínculo da adoção é, sobretudo, a criação de um laço afetivo com o adotado para toda vida, que vai além do vínculo estabelecido por lei. Como diz Lidia Weber, psicóloga, “Adotar é acreditar que a história é mais forte que a hereditariedade e que o amor é mais forte que o destino”. Porém, o processo de adoção brasileiro é longo, tendo o pretendente que preencher pré-requisitos, cursos de capacitação e passar por várias outras etapas para que possa ter acesso a uma fila de adoção com várias outras pessoas na espera por uma criança. Com isso, muitos pequenos enfrentam longas esperas em abrigos e orfanatos e , inclusive, somente chegam a ter contato com as pessoas que vão adotá-las na hora efetiva da adoção, sem que a criança estabeleça um vínculo e uma proximidade com os pais adotivos antes de viverem com eles.
Além disso, a dificuldade na fluidez da fila de adoção também encontra explicações nas exigências dos pretendentes a adotar, que não condizem com a realidade da maioria das crianças que precisam de um lar. Muitos pais adotam uma postura excludente e restrita na hora de escolher quais tipos de crianças querem. Nesse sentido, segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção,há 40.300 pessoas dispostas a adotar, mas o perfil desejado pela maioria é “meninas de 0 a 4 anos, brancas e sem irmãos” , o que corresponde a menor porcentagem do total de crianças disponíveis para a adoção. E isso causa, sem dúvidas, a aglomeração em abrigos de crianças que não correspondem a tal perfil e que, à medida que crescem, se sentem desiludidas em saber que a adoção é uma realidade cada vez mais distante delas.
Portanto, medidas são necessárias para resolver tais impasses. A secretaria dos direitos humanos deve promover um melhor desenvolvimento do processo adotivo de forma mais humanizada e menos burocrática. É necessário fazer com que, antes da etapa de escolha do perfil de criança desejado, seja solicitado aos pais um trabalho voluntário em orfanatos e abrigos para que conheçam as peculiaridades das crianças que sofrem com a exclusão da adoção por serem mais velhas e esperam há tempos por uma família que as adotem, como Liesel Meminger do filme.