Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 08/10/2019
No livro “Anne de Green Gables”, de Lucy Maud Montgomery, é relatada a história de uma menina órfã, Anne Shirley, que durante toda a vida passa de família em família, sendo rejeitada por todas, desde que tinha apenas 4 meses de idade, quando seus pais morreram. Fora da ficção, uma boa parte das crianças adotadas precisam voltar aos orfanatos por não terem se dado bem com aqueles que seriam seus pais adotivos, quando pelo menos chegam a receber uma chance. Esse cenário se dá devido a busca por um “perfil” de crianças que são minoria nos orfanatos e pais que não foram devidamente avaliados psicossocialmente para o processo adotivo.
Em primeiro lugar, é importante destacar que a maioria dos interessados em adotar uma criança procura por recém-nascidas, com idade máxima de três anos, brancas, saudáveis e do sexo feminino, mas a maioria dos órfãos não se encaixa nessa descrição. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, a fila para quem aguarda uma criança no Brasil é composta por 46,2 mil pretendentes, em contraste com as 5 mil crianças efetivamente disponíveis para adoção. Desse total, quase 50% são pardos, e 53% têm entre 10 e 17 anos de idade.
Ademais, a longa duração do processo acaba por também contribuir para o agravamento do quadro. Nesse tempo, que pode ser de até mesmo 5 anos, os interessados podem acabar se separando, perdendo o emprego ou até mesmo conseguindo engravidar, o que faz com que os mesmos percam a vontade de adotar e rejeitem alguém que já passou por momentos muito difíceis, o que só agrava o desgaste do psicológico de uma boa parte desses jovens, que terminam por não confiar mais naqueles ao seu redor e tendo uma maior dificuldade na construção de laços sociais.
Portanto, é perceptível a necessidade de uma atuação maior do governo e da sociedade na amenização da situação atual. Uma avaliação psicossocial mais rigorosa por parte das equipes técnicas de psicólogos e assistentes sociais da Vara da Infância pode evitar que sejam aprovadas no processo pessoas que não estão, verdadeiramente, interessadas na adoção, evitando uma rejeição desnecessária às crianças. Além disso, a conscientização da população a respeito do grande contingente de indivíduos que não são acolhidos apenas por algo tão mínimo como a idade, por exemplo, torna-se essencial, como tem feito o projeto Adoção Tardia do Rio Grande do Sul.