Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 07/09/2019

O obra infantil “Peter Pan” retrata a história de Peter, líder do grupo Meninos Perdidos, que sofrem com a ausência de proteção familiar, e, até serem adotados, criam fantasias para tentar esquecer o triste sentimento de abandono que sentem. Ao sair do contexto ficcional, percebe-se que a realidade imita o conto na medida em que inúmeras crianças e adolescentes são impedidos de vivenciarem experiências familiares sólidas, comprometendo assim, suas vidas sociais e psicológicas. Nessa perspectiva, ir a origem do problema é fundamental para entender as verdadeiras formas de combate a esse mal sério social.

Em uma primeira análise, é válido ressaltar que o sistema burocrático atual demanda muito tempo para ser finalizado, e assim, compromete a efetiva adoção. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, a família deve ser o núcleo fundamental de cada indivíduo, pois contribui diretamente para sua inserção na sociedade, entretanto, a espera para a concretização de todo o processo adotivo gera desesperança para os envolvidos, o que pode acarretar na desistência do processo, visto que são encontradas inúmeras dificuldades para famílias realizarem todos os exames e documentações. Dessa forma, a conquista de um núcleo familiar é distanciada, e, o psicológico das crianças é ainda mais afetado, pois temem uma nova rejeição.

Paralelamente a essa questão legislativa, é fundamental entender que a incompatibilidade dos perfis requeridos com os perfis do lares de adoção contribuem para a manutenção dessa problemática. Isso ocorre porque, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça, cerca de 10% dos pretendentes só aceitam adotar a criança se ela for branca, ou seja, as características solicitadas não condizem com a maioria dos perfis encontrados nos lares de adoção. Tal questão revela a permanência do preconceito racial, por exemplo, na sociedade, sendo um empecilho para a adoção, já que quanto mais exigências, mais demorado e complicado é o processo.

É imprescindível, portanto, uma alteração no sistema adotivo brasileiro. A fim de facilitar e acelerar a efetiva adoção, o Poder Legislativo deve revisar e atualizar as leis vigentes, por meio de uma diminuição no período para a realização dos estudos psicossociais nos candidatos a pais adotivos, por exemplo, que atualmente demandam muito tempo para serem realizados, e, facilitar a questão do apadrinhamento, para que possibilite maior contato entre a família e a criança durante todo o processo. Ademais, cabe ao cidadão, pela capacidade que tem de alterar o próprio cenário, buscar extinguir o preconceito ainda existente, a fim de ter mais empatia com os que precisam de um novo lar. Afinal, só assim as crianças “perdidas” da Terra do Nuca serão acolhidas na vida real.