Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 30/09/2019
“O Brasil é um país de futuro”, disse Stefan Zweig em uma de suas primeiras viagens ao país. Judeu e austríaco, o escritor fugiu de sua terra natal no auge do governo de Adolf Hitler, e encontrou um segundo lar no Brasil. Contudo, quando se observa o processo de adoção, percebe-se que a profecia de Zweig não saiu do papel. Desse modo, existem fatores que favorecem a existência desse cenário de iniquidade, como a discriminação e preconceito racial, além dos adotantes terem preferências em adotar somente as crianças ainda bebês.
Em primeiro lugar, é indiscutível que a discriminação social está entre as causas do problema, tendo em vista que as pessoas querem acolher somente crianças novinhas, brancas, sem irmãos e sem problemas de saúde. De alguma forma, esse padrão persiste e dificulta a adotação. Nessa lógica, segundo Freud em seu livro, “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, indivíduos tendem a suprimir o próprio ego e agir de acordo com o meio, oprimindo as diferenças. Assim, ressalva-se a importância de certos setores da sociedade, a exemplo de famílias e escolas, na formação cidadã dos brasileiros, para que o cenário apresentado deixe de ferir a Declaração Universal dos Direitos Humanos e se modifique positivamente.
Ademais, a elaboração da Constituição Federal, há 30 anos, foi baseada no sonho de bem-estar social para todos os cidadãos, inclusive crianças e adolescentes que vivem em abrigos. De acordo com o Cadastro Nacional de Adoção, 76% das crianças disponíveis hoje nos abrigos têm 5 anos ou mais e quando completam 18 anos são obrigados a deixar a instituição, e isso é um problema, pois deixam o lugar na maioria das vezes sem trabalho e moradia, fator resultante da não aceitação da adoção tardia. Dessa maneira, percebe-se uma intolerância em relação aos mesmos, um irrespeito enorme, uma desvalorização frente ao ser humano e que, deve ser modificado em todo território nacional.
Em vista dos argumentos apresentados, urge que medidas sejam tomadas para minimizar a questão. Logo, o Governo, por meio do Poder Executivo, deve oferecer um auxílio através da indicação dos indivíduos com 18 anos que não conseguirem ser acolhidos no mercado de trabalho, a fim de que tenham uma vida digna e de qualidade. Além de que cabe ao Ministério da Educação, promover campanhas em escolas e na mídia voltadas para toda a população, a fim de minimizar o preconceito e estimular a adoção tardia e fazer com que a sociedade entenda que, “Se aprende com as diferenças e não com as igualdades”, como diz Paulo Freire.