Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 01/10/2019

Realidade distante

Uma das premissas mais enfatizadas pelo Iluminismo – movimento revolucionário do século XVIII – foi a idealização de um futuro no qual o bem estar social fosse uma realidade consolidada. No entanto, o ineficaz desenvolvimento da cultura da adoção, no território brasileiro, expõe a fragilidade da sociedade civil e poder público, no cumprimento de princípios do século das luzes. Com efeito, a inclusão de crianças e adolescentes, em uniões familiares, pressupõe o apreço a valores essenciais à democracia, a saber, a sensação de pertencimento.

A princípio, é coerente afirmar que o deficiente contexto de adoção, no Brasil, está diretamente atrelado a omissões construtivistas. Nesse sentido, Paulo Freire afirma que as escolas detêm o papel social de auxiliar na promoção de indivíduos aptos a perpetuarem ações de caráter inclusivo. Entretanto, a persistência de um meio, com um grande quantitativo de membros desamparados de uniões familiares, demonstra dificuldades do atual modelo pedagógico brasileiro, no combate a esse aparato. Dessa forma, enquanto não houver modificações no viés orientador, a esfera adotiva do país estará comprometida.

Ademais, a massiva presença de estereótipos e padrões sociais constituem entraves para a construção de um país menos excludente. Isso se evidencia, segundo o Estatuto da Criança, pela intensa seletividade de grande parcela de adotantes, os quais optam pela aproximação às crianças com fenótipos análogos a si, brancas e de menores idades. Sobre isso, o cenário refuta a ideia do pensador Gilberto Freyre, o qual afirma a permanência de sociedade brasileira repleta de preconceitos e segregações. Dessa forma, torna-se claro que a imposição de prejulgamentos corrobora para atenuação de um princípio fundamental à vida: o estabelecimento de laços familiares.

Depreende-se, portanto, a necessidade de desconstruir impasses, que dificultam o sucesso da adoção, no contexto verde-amarelo. Compete, assim, ao Ministério da Educação intensificar, nas salas de aulas, a importância de medidas cidadãs e solidárias, por meio da exposição de vídeos lúdicos, a fim de manter vivo, a longo prazo, o anseio da adoção entre os indivíduos. Por mais, cabe à função apelativa da mídia promover o incentivo à prática adotiva, por intermédio da criação de comerciais, em horário de maior audiência televisiva, que valorizem a pluralidade de indivíduos, precariedade familiar, a com intuito de reforçar o ato inclusivo e minimizar preconceitos. Logo, seria visível a formação de um país mais harmônico, transigente e, assim, as premissas iluministas deixariam de ser uma realidade distante.