Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 18/10/2019

O filme “Meu Malvado Favorito” ambienta a vivência de um vilão que tem a vida traçada por três irmãs, cuja adoção muda a vida do personagem principal. Fora da ficção, no entanto, o panorama da perfilhação é, de maneira antagônica, associada à animação infantil. Isso porque, apesar da exorbitante lista de pretendentes, o número de crianças é, também, expressivo e conjectura os desafios para a adoção no Brasil. A problemática estende-se, sobretudo, diante do perfil de preferência dos adotantes, em sua maioria, por bebês e, além disso, da baixa inclusão de famílias alheias ao estereótipo desejado.

Em primeira análise, há de se observar o estrutural contingente de crianças mais velhas nos orfanatos brasileiros. Nesse sentido, no relato geral dos potenciais pais, predomina o discurso acerca dos receios da vivência de uma criança mais velha, já que essa é maior detentora da sua consciência cidadã, e, dessa forma, encontra-se fadada aos traumas de uma primeira rejeição. Diante desse cenário, não é incomum encontrar situações de devolução de órfãos aos abrigos, sob a má adaptação do lar temporário, na maioria dos casos. Com isso, a Lei da Inércia, estudada e comprovada pelo físico Isaac Newton, endossa a questão vivida pela maior faixa etária: a ausência de uma melhor perspectiva os condiciona a uma conjunção de inatividade parental, tendendo ao estado de permanência

Além disso, a questão da adoção segrega, também, os pretendentes que distam-se do modelo familiar estruturado no país. Sob essa ótica, o pensador Sigmunt Freud, com a obra “Totem e Tabu”, fomenta a preceitos religiosos fundamentados na sociedade, já que esses, dotados de dogmas sagrados, acabam por cercear a liberdade de escolha de uma comunidade. Nesse parâmetro, não é complexo entender, que a figura parental dissociada do majoritário composto familiar de pessoas casadas e heterossexuais, apresenta maiores dificuldades no processo adotivo. Assim, o pensamento do pai da psicanálise comprova que a questão do preconceito no território verde amarelo apresenta-se um obstáculo na adoção e reverbera a necessária liquidação dessa problemática.

Depreende-se, portanto, a ruptura dos impasses para a legitimação da paternidade no Brasil. Para tanto, cabe ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) promover, em parceria com a mídia, campanhas que atentem à inclusão geral dos infantes, com o desenvolvimento de palestras com os pretendentes, iniciando, assim, o contato desses com o abrigo anterior ao preenchimento da lista de preferências, de maneira a incluir socialmente os órfãos. Ademais, cabe ao órgão supracitado fiscalizar e enrijecer a legitimação dos pretendentes aptos para a adoção, com o fito de erradicar problemas relacionados à discriminação das minorias. Diante dessa expectativa, será possível traçar um consistente paralelo das crianças brasileiras com as personagens de “Meu Malvado Favorito.”