Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 09/10/2019

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, a adoção é uma alternativa de proteção social. No Brasil, embora o número de pessoas interessadas seja suficiente, ainda existe uma enorme fila de crianças disponíveis para esse processo de filiação. Isso expõe o problema do preconceito e ignorância quanto aos propósitos da adoção, pois, na cultura brasileira, ela ainda é vista mais como um meio de satisfação dos adotantes do que das crianças. Com isso, cria-se um grande impasse ao processo, marcadamente de caráter cultural.

Grande parte dos brasileiros interessados em adotar elege diversas características como requisitos à adoção. Como exemplo, pode ser citada a grande recusa por crianças com irmãos. Dados do Cadastro Nacional da Adoção mostram que mais de 65% dos que se propõem a adotar rejeitam crianças com irmãos. Outras características pessoais, como cor da pele ou deficiências físicas, também constituem empecilhos. Isso gera um contingente de crianças e adolescentes com perspectiva cada vez menor de terem uma família.

A recusa por grupos com certas características acaba incluindo-os em uma outra categoria de pessoas desprestigiadas no momento da adoção: crianças e adolescentes mais velhos. Os brasileiros ainda consideram a adoção de bebês como ideal e, com isso, fazem surgir uma massa de adolescentes confinados em abrigos. Estes, aos dezoito anos, terão obrigatoriamente que deixar essas instituição de amparo e enfrentar as dificuldades da vida social sem terem contado com o amparo de uma família durante seu desenvolvimento enquanto indivíduos. Tal grupo de pessoas, em sua maioria, é marcado pela insatisfação e falta de perspectiva, o que o torna alvo fácil do chamariz da criminalidade.

O processo de adoção, portanto, encontra um grande gargalo cultural no Brasil, o que não é fácil de resolver. Instituições governamentais e sociais devem desenvolver iniciativas de esclarecimento sobre os propósitos da adoção, como campanhas educativas e a inclusão desse assunto em discussões nas escolas, visando a mudar o entendimento que hoje se tem sobre a questão. Além disso, leis de adoção devem prever benefícios e incentivos aos adotantes de crianças e adolescentes que atualmente possuem menor expectativa de conseguirem uma nova família. Essas iniciativas, em longo prazo, criam mudanças de postura e fazem nascer novas perspectivas ao contingente de crianças e adolescentes atualmente rejeitados no processo de adoção.