Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 12/10/2019

Na série canadense “Anne with an e”, a órfã Anne-Shirely, depois de treze anos sofrendo no sistema de assistência social, é adotada por Matthew e Marilla Cuthberth, um casal de irmãos. O enredo é construído com chegada da menina a sua nova casa, onde fica claro que houve um erro, pois ela não era o perfil solicitado pelo casal, que buscava um menino para ajudar nos afazeres da fazenda. Essa narrativa foge da ficção e alça estatísticas assustadoras, uma vez que retrata um dos maiores entraves no processo de adoção no Brasil. Urge dessa questão que a disponibilidade é muito maior que a demanda, todavia, o perfil idealizado destoa do mundo real. Nesse cenário é preciso reavaliar qual o verdadeiro sentido dado à adoção no país e motivo desse desinteresse por parte dos adotantes.

De início, vale ressaltar que o maior impasse dessa problemática são as características exigidas pelos pretendentes em detrimento da realidade encontrada nas entidades. De acordo com dados do Conselho Nacional de Adoção (CNA), apenas 10% dos adotantes aceitam crianças maiores de 5 anos. Entretanto, essa faixa etária é a de menor disponibilidade, aproximadamente, 4,1%. Em virtude disso, a lista de espera é maior que a disposição, o que gera um descompasso traumático para o adotando que não se enquadra no perfil requerido e para as famílias que passam anos no cadastro. Essa situação permeia um ideário que cresce no país, segregando crianças e adolescentes nos abrigos brasileiros.         Cabe ainda, nessa mesma perspectiva, destacar outra condição que torna o processo moroso no Brasil, a perfilhação de irmãos. Nesse contexto, ainda segundo dados da CNA, apenas 17% dos cadastrados aceitam adotar essa configuração. Em contrapartida essa parcela computa, por volta de 76% das crianças disponíveis, ocasionado, novamente, uma lacuna entre o idealizado e a realidade. Além disso, na prática judicial, a separação é evitada com o intuito de preservar a interação biológica, necessária no fortalecimento dos primeiros vínculos afetivos do adotando. Este quadro evidencia que esse ato de afeto perdeu sua legitimidade em função dos padrões limitantes.

Fica claro, portanto, que os desafios no processo de adoção no Brasil estão na sua cultura seletiva. Nesse sentindo, a mídia deve agir como formadora de opinião, por intermédio de propagandas diárias que visem promover a diversidade dos abrigos brasileiros e como as características exigidas segregam esses jovens,a fim de construir um pensamento mais empático nos adotantes a respeito de suas exigências. Ademais, o Conselho Nacional de Justiça pode investir em políticas que tornem o processo mais rápido, por meio da contratação de mais profissionais responsáveis, além de psicólogos que trabalhem com os requerentes, no decorrer do cadastro, a aceitação de novos arranjos familiares, visando desconstruir esse desinteresse e enfatizar o verdadeiro significado de adoção.