Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 12/10/2019
Antagonicamente, o sistema chinês para distribuição de terras era moldado pelo nascimento de crianças, em que uma menina significava uma terra a menos a ser doada pelo Estado. Assim, teve como consequência um cenário de assassinatos tenebrosos, no qual, caso o bebê não fosse um menino, havia diversos métodos para ocasionar sua morte, desde afogamentos até os tirando a força de suas mães. Em suma, aplicando à realidade de adoção no Brasil, a essência de seus impasses pode ser retirada de tal fato histórico: famílias querem escolher o sexo e biótipo de seus futuros filhos, desenvolvendo rejeição por aqueles que não se “encaixam” no ideal dos pais.
Outrossim, de acordo com Émile Durkheim, a solidariedade seria o conjunto de valores que um grupo está inserido, passando de geração para geração, afirmando que o ser social é a soma da consciência individual e coletiva. Logo, a solidariedade é, por muitas vezes, seletiva de acordo com os ideais dos indivíduos. Por meio disso, a preferência existente dentro de instituições adotivas revela o quão dispare é o número de crianças que planejam ser adotadas e as disponíveis. Segundo o Conselho Nacional da Justiça, de 95% dos casais que querem adotar crianças de até 5 anos, somente 8,2% tem essa faixa etária.
De maneira análoga, a desinformação e estereótipos impedem a mudança da problemática. Assim, a prioridade por crianças mais novas tem como causa o medo da não adaptação do adotado em relação à nova família e, por consequência, provável rejeição, em que a diferença da educação recebida pelas crianças mais velhas seja vista como um empecilho por muitos pais adotivos. Entretanto, a espera agonizante para os jovens que se aproximam dos 18 anos é muito maior que qualquer possível rejeição, pois este apenas preza por um lar e amor.
Desse modo, é evidente a necessidade da desmistificação de estereótipos e criação de meios para incentivar a adoção de crianças mais velhas. Portanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente, associado a profissionais da área psicológica, devem realizar acompanhamentos antes e após a adoção, incentivando os futuros pais a adotarem crianças mais velhas, por meio da aproximação afetiva de ambos, permitindo que adotadores conheçam as histórias de vida dos jovens, realizando sessões conjuntas com psicólogos. Dessa forma, a solidariedade irá muito além de concepções individuais.