Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 18/10/2019
Em “Meu Malvado Favorito”, a animação retrata a construção de um laço afetivo quando o vilão Gru decide adotar três garotas órfãs,a princípio, para o sucesso de suas vilanias. Fora das telas, na sociedade brasileira, o cenário aos pretendentes à adoção emerge-se desafiador mediante a burocratização do sistema brasileiro. Assim, o incentivo ao gesto e a questão da informação demonstram-se inexpressivos no que tange à criação de novos vínculos familiares.
Em primeiro lugar, cabe pontuar a divergência entre a compatibilidade de adotandos e adotantes como fator seletivo na efetivação do processo adotivo. Segundo o Cadastro Nacional de Adoção (CNA), o perfil predominante nos abrigos são adolescentes do sexo masculino, não brancos e com irmãos. No entanto, tais características são diferentes das procuradas pelos interessados na busca de novos integrantes ao seu convívio familiar. Dessa forma, essa visão seletiva corrompe o principio da ética utilitarista, uma vez que não somente aumenta o tempo de permanência daqueles considerados “incompatíveis” nos abrigos, mas também impede o bem estar social daqueles que desejam um novo lar acolhedor.
Outrossim, cabe destacar a exiguidade informativa para a população sobre o procedimento jurídico que ampara o direito de adotar. Conforme os filósofos da Escola de Frankfurt - Adorno e Horkhemeir - a indústria cultural caracteriza a produção de conteúdo em massa, no século XXI, submissa à logica capitalista. Nesse sentido, a disponibilidade de conhecimento é negligenciada acerca do processo de adoção, visto que a prevalência do lucro em detrimento da formação cidadã dificulta a possibilidade de encontro entre uma parcela considerável de crianças e adolescentes a uma filiação afetiva entre os envolvidos.
Em vista dos argumentos apresentados, é crucial à reversão desse panorama complexo do Brasil contemporâneo. Dessa forma, compete à Vara da Infância e da Juventude junto ao CNA dar prioridade aos indivíduos, na fila de espera, que decidam adotar o público majoritário na qual continuam permanecendo nas casas de acolhimento, a fim de oportunizar carinho e proteção. Além disso, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos em parceria com os meios de comunicação devem promover a recorrência de campanhas publicitárias nos canais televisivos e nas redes sociais - já que detêm um grande alcance social - instruções sobre o funcionamento do sistema de adoção no país, para que possa incentivar o engajamento popular à pretensão de adotar. Posto isso, o cenário acolhedor de Gru e suas filhas poderá ser vivenciado por muitas famílias que decidam firmar esse laço de afeto com o público infanto-juvenil.