Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 18/10/2019
Em 1997 se estabeleceu à primeira política de transplante no Brasil. Hoje, a nação é referência mundial nessa área e possui o maior sistema público de transplantes do mundo, de acordo com o Ministério da Saúde. No entanto, esse cenário não reflete à cultura de doação de órgãos no país, uma vez que os transplantes só ocorrem por meio da disponibilidade dessas contribuições, que seguem um descompasso preocupante entre à oferta e à demanda. Essa construção cultural negativa sobre o processo de doação é atrelada à falta de informação e à descrença da família no procedimento de retirada.
De início, vale ressaltar que um dos desafios é a falta de conhecimento sobre o diagnóstico. A regulamentação das doações classifica como apto o doador que teve morte encefálica, resultado da falência de todas as suas funções cerebrais. Nesse estágio, o paciente já está morto cientificamente, mas, o coração segue batendo até o falecimento total do organismo. Esse cenário fomenta esperanças fantasiosas nos familiares que optam por recusar à doação. Sob esse ponto de vista, um levantamento da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) registrou, em 2017, que mais de 43% das famílias deliberaram pela rejeição do procedimento. Desse modo, a falha na compreensão do estado clínico gera um entrave na captação dessas unidades para transplantes futuros.
Cabe ainda, nessa mesma perspectiva, destacar que a visão cultural que a sociedade constrói sobre o método de retirada desses órgãos é determinante para a negação das doações. De acordo com o vice-presidente da Organização de Procura de Órgãos de São Paulo (OPO-SP), Edvaldo Leal, os familiares acreditam que o paciente possa sofrer uma desfiguração e perder a integridade física corporal. Assim sendo, a família, que é a detentora jurídica do corpo, cultua a doação como uma mutilação e não como um ato cirúrgico, sem sequelas físicas para o indivíduo.
Fica evidente, portanto, que os desafios são culturais e precisam ser desconstruídos. Logo, o Ministério da Cultura deve criar parcerias com os veículos de comunicação, a fim de promover propagandas diárias que informem à importância das doações e como o diagnóstico de morte encefálica é irreversível, além de desmistificar a técnica de captação dos órgãos como mutiladora. Assim, portados dessas informações os debates serão gerados no âmbito familiar promovendo o ideário de contribuição na sociedade. Ademais, o Ministério da Saúde precisa investir na ABTO com o fito de melhorar à capacitação dos profissionais responsáveis, por meio da aplicação de cursos e palestras que visem humanizar a relação entre a família e o profissional da saúde. Dessa maneira, poderá haver um equilíbrio entre a oferta e a demanda, a doação e o transplante.