Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 26/10/2019

Na obra “Cegueira Moral”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é relatada a falta de sensibilidade da sociedade em meio às dores do indivíduo, em conjunto com a ausência de sentido da palavra comunidade, em um mundo imerso no individualismo. Nesse contexto, ao se analisar as dificuldades no processo de adoção, percebe-se que a indiferença descrita por Bauman está extremamente presente nos problemas do século XXI. Esse cenário é fruto, tanto da falta de políticas públicas eficientes, quanto da ausência de consciência da sociedade sobre adoção de adolescente. Diante disso, torna se fundamental a discussão desses aspectos, a fim de que se retome o sentido da palavra comunidade.

Antes de tudo, é fulcral pontuar que as barreiras impostas no processo de adoção derivam da baixa atuação dos setores governamentais, no que concerne a criação de mecanismos que coíbam tais recorrências. Segundo o pensador Thomas Hobbes, o Estado é responsável por garantir o bem-estar da população. Entretanto, isso não ocorre no Brasil, devido a falta de ação das autoridades, na desburocratização dos meios de adoção. Em consequência disso, a criança que necessita ser adotada perde diversas oportunidades. Isso porque, nesse processo demorado, muitas famílias são desestimuladas a dar continuidade no acolhimento, por não conseguir juntar todos os documentos necessários. Por certo, a burocracia governamental retarda a resolução desse quadro deletério.

Ademais, é imperativo ressaltar a falta de conscientização da sociedade como impulsionadora do problema. De acordo com uma pesquisa realizada no portal de notícias G1, 79,6% dos casais que querem adotar uma criança, optam exclusivamente por jovens com menos de doze anos. A partir desse pressuposto, alguns jovens ficam em abrigos de adoção até completar a maior idade, pois não são escolhidos por adultos, visto que existe preconceitos sobre esses jovens, por já deterem uma bagagem emocional, em decorrência do abandono sofrido e do tempo vivido no abrigo. Logo, esse fato pode levar ao aparecimento de problemas de aceitação no jovem, ao se sentir excluído da sociedade pela rejeição parental sofrida. Desse modo, faz-se mister a reformulação dessa postura de forma urgente.

Portanto, é possível defender que impasses políticos e sociais constituem desafios a se superar. É fundamental, em vista disso, que o Poder Legislativo, em parceria com o Ministério da Família, proporcione a criação de leis, a serem aprovadas pelo Senado, que diminuam o tempo de conclusão de um processo de adoção, para um mês, por meio de facilitação de documentos necessários, para que mais crianças possam ser adotadas e, assim, reduza as filas de adoção. Aliado a isso, faça projetos de conscientização sobre a importância da adoção de adolescentes. Desse modo, atenuar-se-á os efeitos negativos do processo de adoção e a coletividade contornará a visão social de Bauman.