Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 05/03/2020
É possível, por intermédio da linguagem simples e coloquial do poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, fazer uma analogia a respeito dos impasses no processo de adoção no Brasil. Acerca de tal análise, pode-se ligar a pedra, presente na obra drummondiana, à crescente repercussão e manifestação da problemática no cotidiano dos brasileiros. Ainda, constata-se que o revés está atrelado não somente à inoperância estatal, mas também, a decisão de grande parte dos adotantes de não adotarem crianças diferentes dos pré-requisitos estabelecidos.
De início, pontua-se o desleixo governamental como precursor do agravamento da situação. No livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles, defende que a política serve para garantir o bem-estar dos cidadãos. Porém, o descaso das autoridades públicas em relação à burocracia e a morosidade no processo adotivo, fomenta a atual inadimplência do Estado em solucionar a mazela social. Porquanto, os dados divulgados pelo portal de notícias G1, os quais apontam que uma criança que já teve o poder familiar destituído e aguarda uma família em um abrigo leva mais de dois anos, em média, para ser adotada, exemplificam o desdém político-administrativo. Dessa forma, verifica-se a necessidade de uma reformulação nas ações político-sociais, a fim de que o axioma aristotélico retorne ao cerne dos princípios governamentais e os acontecimentos supracitados possam ser mitigados à população, sobretudo às crianças vítimas do estorvo burocrático.
Outrossim, as exigências fenotípicas dos futuros pais no ato da adoção contribuem para a acentuação da problemática. Consoante à teoria da Tábula Rasa, de John Locke, o ser humano é como uma tela em branco, que é preenchida a partir de experiências e influências. Nesse sentido, ratifica-se a importância que os pais possuem no desenvolvimento e na transmissão de valores socioculturais aos descendentes. Diante disso, verifica-se a relevância da prática para a sociedade e seus futuros integrantes. Contudo, os adotantes, ao estipularem pré-requisitos às crianças, contribuirão diretamente para um agravamento da situação, visto que estas ficarão no orfanato até atingirem a maioridade. Posto isso, medidas se fazem necessárias para reverter essa realidade e preservar o futuro da nação.
Logo, para que o triunfo sobre as barreiras da adoção seja consumado, urge que o Sistema Jurídico, por meio dos recursos enviados pelo Estado, agilize à regulamentação adotiva, de modo a minimizar os longos períodos de espera. Ademais, essa ação deverá ser posta em prática mediante fiscalizações nas casas de adoção, com objetivo de por um fim nos processos burocráticos. Ainda assim, recursos devem ser aplicados na criação de palestras educativas, com o intuito de desconstruir a visão de muitos pais que quererem adotar o filho perfeito. Dessarte, a pedra poderá ser removida do caminho social.