Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 29/02/2020

Sêneca, pensador do Império Romano, acreditava que apenas as percepções da pessoa sobre o meio eram capazes de alterar o estado de tranquilidade desta. Entretanto, contesta-se a notoriedade populacional diante dos problemas enfrentados para adotar crianças e adolescentes no Brasil, pois, infelizmente, o abandono ainda é generalizado. Com efeito, reestruturações educacionais e políticas são medidas necessárias para que os impasses no processo de adoção em âmbito nacional sejam cessados.

Inicialmente, é válido ressaltar a persistência do preconceito no momento de adoção. Segundo Pierre Bourdieu, sociólogo francês, existe a violência com ausência de coerção física, mas que, no entanto, provoca problemas morais e psicológicos, surgindo o termo “violência simbólica”. A partir do conceito supracitado, pode-se constatar que as exigências por idade, gênero e raça podem provocar traumas nas crianças, as quais, por serem abandonadas pelos responsáveis, passam a se analisar como mercadorias. Afinal, naturalmente, não existem prioridades, porque o bebê nasce conforme características genéticas  familiar imutáveis. Desse modo, faz-se de suma importância a autoanálise comportamental desse grupo social - os que adotam e os que são adotados - com a finalidade de romper essa cultura individualista.

Outrossim, é imprescindível mencionar a negligência governamental acerca da parcela marginalizada da sociedade. De acordo com o jornal “O Globo”, as drogas e a miséria são a maior causa de abandono de crianças. Dessa maneira, nota-se que a desigualdade crescente, a qual progride nas favelas e na marginalização, afeta diretamente o grupo de pessoas a serem adotadas. A partir de tal fato, é possível, também, afirmar que a maioria dos menores encontrados nas ONGs são de raça negra, pois essa é, sobretudo, maioria nas regiões marginalizadas, visto que tal cenário se perdura desde a abolição da escravatura em 1888. Portanto, para que exista uma menor taxa de abandono, de nada vale uma política de repugnância ao racismo sem dispor visibilidade à população das favelas, a qual, por ser excluída por sua condição estrutural, é afetada, além de financeiramente, psicologicamente pela falta de independência para criar descendentes.

Por conseguinte, medidas são importantes para que o processo de adoção seja progressivo para a nação. Posto o alto padrão de exigência de alguns responsáveis dispostos a adotar, é indispensável que o Governo Federal, por meio de uma reunião com os governadores estaduais, exija uma avaliação dos órgãos encarregados no processo para que, a partir de questionamentos, não relevem adultos que idealizam um esteriótipo como filho. Com isso, a finalidade de dar uma maior visibilidade às causas exclusivamente solidárias será sucedida. Por fim, haverá um melhor resultado não só para o método, mas sim para o caminho à sociedade igualitária.