Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 13/04/2020
Em um de seus poemas, a ilustre poetisa brasileira Cora Coralina afirma “Criança periférica, rejeitada. Teu mundo é o submundo”. Tal preceito reflete o hodierno cenário da adoção no Brasil, visto que não só devido a uma idealização de perfis estereotipados, mas também pela extrema burocratização do processo adotivo brasileiro, milhares de crianças e adolescentes são submetidos a uma vida de rejeição. Assim, tal realidade é inconcebível e merece um olhar crítico de enfrentamento.
Faz-se pertinente, inicialmente, destacar que, em função da preferência por padrões específicos por parte dos adotantes, cresce o número de jovens reféns de uma vida em orfanatos. A questão é tão séria que já foi abordada pela série canadense “Anne with an E”,em que um casal de irmãos optam por adotar um garoto para ajudar-lhes na lavoura. Todavia, eles recebem Anne, uma garota que vai de encontro ao perfil “desenhando” pelos adotantes, os quais, em certo momento da trama, ponderam acerca da ideia de mandá-la de volta ao orfanato. Não distante da ficção, é fato que, devido ao preconceito enraizado socialmente, o qual privilegia perfis pré determinados, muitas crianças acreditam que o ato de ser adotado é uma utopia.
Outrossim , é imperioso salientar os impactos da burocratização do processo adotivo no Brasil. Segundo dados disponibilizados pelo portal G1, a adoção brasileira pode chegar a durar, em média, 4 anos o que contribui para que muitos possíveis pais desistam do procedimento. Dessa maneira, a euforia inicial dos adotantes diminui, ao passo que a quantidade de crianças carentes de amor e cuidados só aumenta.
À luz dessas considerações, medidas são necessárias para mitigar essa nefasta conjuntura. Portanto, cabe a mídia socialmente engajada, em conjunto com o Estatuto da Criança e do Adolescente, a desconstrução de preconceitos arraigados na sociedade por meio de palestras e campanhas publicitárias a serem divulgadas em locais públicos ou no espaço virtual, que visem informar sobre a diversidade de crianças a serem adotadas e influenciar a uma mudança de pensamento. Ademais, urge ao Governo Federal tornar o processo adotivo mais célere, mas sem comprometer a qualidade do serviço a ser prestado pela Justiça com o fito de evitar a desistência. Somente assim, os jovens brasileiros vivenciarão um mundo que não seja o submundo como dito por Cora Coralina.