Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 23/04/2020

A série “Anne With An E” se inicia com os irmãos Matthew e Marilla Cuthbert adotando a personagem Anne Shirley, entretanto, o casal estava à espera de um menino. Diante dessa situação, a revelação do gênero não é bem recebida pelos adotantes, já que possuíam uma prévia idealização do perfil de quem queriam adotar. Infelizmente, este cenário não é somente fictício, sendo a realidade na maioria dos processos adotivos no Brasil. Analogamente, é possível dizer que a duradoura dificuldade de adotar alguém no território brasileiro é baseada nas exigências por um perfil específico para a adoção e a expectativa em relação às crianças, ambos encenados pelos pais.

Em primeiro lugar, é importante frisar que existe um descompasso que intensifica a dificuldade dos processo adotivos brasileiros. De acordo com a organização CNA (Cadastro Nacional da Adoção), o número de pais cadastrados para adotar é cinco vezes maior do que a quantidade de crianças que aguardam um abrigo no País. Tal fato se sustenta nos persistentes requisitos de características singulares feitos pelos adotantes. Conforme informações do site Carta Capital, somente 5% dos candidatos a pais e mães adotivos aceitariam crianças com nove anos de idade ou mais, e esse perfil é cerca de 60% das crianças que vivem em abrigos. Evidentemente, essa circunstância colabora para que pessoas neste perfil não sejam adotadas e aumentem as estatísticas dos lares temporários.

Ademais, além das expectativas dos pais sobre as características de seus filhos, a problemática também consta com a idealização do processo de adoção e adaptação das crianças. Segundo a psicanalista Maria Luiza Ghirardi, especializada em estudos comportamentais de pais que pretendem adotar, existe uma forte ambição dos pais que a criança solucione os problemas dos adultos ou para que ela se encaixe na estrutura familiar oferecida. Tais ânsias geram metas inalcançáveis, tanto para os adotantes quanto para a criança adotada, que acabam em frustrações e até devoluções de crianças.

Em suma, os impasses para o processos adotivos no Brasil são as expectativas físicas e familiares dos adotantes impostas sobre a adoção. Logo, para que a problemática ganhe um fim, medidas precisam ser criadas pelo CNA (Cadastro Nacional da Adoção), órgão responsável por todas as Varas de Infância e Juventude referentes a crianças e adolescentes em condições de serem adotados e referentes a pretendentes à adoção, como por exemplo, a intensificação de grupos de apoio para aqueles que desejam adotar alguém. Tais grupos se encontrariam de forma mensal e, não só receberiam ajuda psicológica para lidar com o processo, mas, principalmente, seriam orientados sobre como desconstruir suas expectativas acerca da adoção. Dessa maneira, o processo de adoção se tornaria algo mais simples e dinâmico.