Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 17/11/2020
O livro “Amor Não Tem Cor”, da escritora brasileira Giselda Laporta, relata a história de um casal interessado em adotar uma criança, mas o homem só aceita com a condição de que seja uma menina loira e de olhos azuis. Fora da ficção, inúmeros casais se assemelham ao da trama, visto que o perfil idealizado por estes é divergente do perfil da maioria das crianças disponíveis nos orfanatos. Nesse sentido, as dificuldades no processo adotivo no Brasil são causadas pela falta de debate e pelo individualismo da população.
Antes de tudo, é preciso salientar que a lacuna de debates e de informações a respeito do processo de adoção no Brasil é uma causa latente do problema. Segundo o filósofo Habermas, a linguagem é uma verdadeira forma de ação. Entretanto, a linguagem citada pelo pensador não é usada para informar os adultos sobre as dificuldades no processo adotivo e sobre a vida das crianças e adolescentes que anseiam com um lar. Dessa forma, em virtude do procedimento demorado e burocrático, muitos casais desistem de adotar um filho antes de procurar informações.
Ademais, a falta de empatia é um enorme percalço para resolução da questão. De acordo com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a sociedade atual é fortemente influenciada pelo individualismo. Sob essa lógica, grande parte dos brasileiros negligenciam o processo de adoção por não pensarem no que acontece com os órfãos que atingem a maioridade ou fogem para entrar no ramo do crime. Assim, é extremamente necessário que a comunidade seja menos individualista e mais empática, principalmente com as crianças negras e mais velhas, pois as chances de adoção para estas são, infelizmente, menores do que para as que são consideradas como o perfil ideal.
Portanto, medidas estratégicas são necessárias para reverter esse severo paradigma. Para isso, o Estatuto da Criança e do Adolescente deve promover propagandas e publicações informativas, por meio dos grandes canais de comunicação, a fim de não só mitigar o silenciamento sobre a adoção, mas também de promover a empatia entre os cidadãos brasileiros. Tais publicações deverão ser divulgadas no aplicativo Adoção Sim, que será criado para tirar dúvidas sobre o processo adotivo e para incentivar a população. Somente assim, o quadro de sociedade individualista citado por Bauman será freado.