Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 19/08/2020

Segundo Maquiavel, “não há nada mais difícil e perigoso do que tomar a frente na introdução de uma mudança”. De fato, a adoção promove grande alteração na vida das crianças abrigadas e, portanto, necessita de cautela durante o processo para que não sejam expostas à lares conturbados. Contudo, a idealização das famílias em relação a adoção tardia e ao acolhimento de irmãos promove maiores dificuldades nesse procedimento.

Diante do anseio por um novo lar, a idade pode ser um obstáculo para a adoção. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, 90% das crianças abrigadas possuem mais de 7 anos e apenas 5% das famílias são favoráveis à adoção tardia. Essa preferência por bebês é explicada pela vontade da família adotiva em fazer parte da formação da criança desde os períodos iniciais. Assim, evitariam problemas relacionados às más experiências vividas pelos mais jovens. Contudo, isso paralisa a fila de adoção e permite que vários órfãos permaneçam sem acolhimento familiar.

Tal situação também é estimulada pela baixa disponibilidade dos brasileiros em adotar irmãos. Percebe-se que os órfãos provém de lares que não dão suporte educacional, financeiro e emocional adequado, algo evidente em famílias pobres, que costumam ter mais filhos. Portanto, uma criança raramente chega sozinha ao abrigo. Contudo, a maioria dos pais adotivos preferem apenas uma criança, dificultando o processo de adoção. Isso é exposto no filme “Desventuras em série”, no qual três irmãos órfãos passam por diferentes famílias até serem definitivamente acolhidos.

Assim, o favoritismo a adoção de bebês sem irmãos complica o acolhimento de órfãos. Portanto, a Justiça da Infância e Juventude deve analisar o histórico da criança para definir se há necessidade de apoio psicológico público para este e para a futura família, a fim de amenizar os problemas vividos pelos órfãos e permitir maior aproximação familiar. Ademais, programas de alta audiência, como o Fantástico, devem expor as experiências dos pais que adotaram irmãos, para incentivar a população a ser mais flexível quanto ao perfil de adoção.