Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 02/09/2020
Orfanatos já ganharam destaque na mídia nacional através de casos polêmicos como o desfile de crianças disponíveis para adoção em um “shopping center”. Autoridades responsáveis pelo evento defenderam que o objetivo principal seria o de promover maior visibilidade de pré-adolescentes e adolescentes, já que fazem parte do grupo menos procurado por casais que expressam o desejo de adotar. Acrescido ao fator idade,a burocracia envolvida no processo adotivo também resulta no afastamento entre o desejo e a realidade de se obter a guarda de um filho por meio da adoção. Nesse sentido, a realidade de milhares de crianças brasileiras torna-se ainda mais difícil,sujeitas,muitas vezes ,a nunca serem acolhidas por um núcleo familiar.
Bauman,sociólogo e filósofo polonês,defendeu a liquidez nos relacionamentos contemporâneos. Tal aspecto pode ser observado na seleção dos perfis das crianças, na qual geralmente são determinados aspectos físicos específicos e faixas etárias bem restritas. Assim como Zygmunt escreveu,a falta de solidez na sociedade sempre exibirá um padrão de priorização da aparência em detrimento dos sentimentos. Dessa forma também, a valorização das demandas individuais sempre estará acima de qualquer troca afetiva, a qual poderia ser estabelecida de igual forma com pré-adolescentes e adolescentes e não só com bebês e crianças menores de 7 anos.
A burocracia enfrentada no processo de adoção deve-se principalmente ao sistema judicial lento no Brasil. Além das longas filas de espera, após o desígnio de uma criança compatível, ainda passam-se meses ou anos até que o processo seja completo e a guarda oficializada. Para muitos, o tempo é fator determinante, o que provoca altos índices de desistência. Dessa forma, os prejuízos são muitos para as crianças que esperam por uma família, sendo o psicológico o maior deles.
Paradoxalmente, há milhares de crianças em orfanatos por todo o Brasil enquanto a maior parte da população brasileira tem expectativa de ter pelo menos um filho durante a vida. Portanto, visando minimizar tal fato, são necessárias ações do Estatuto da Criança e do Adolescente que garantam uma maior acessibilidade da sociedade ás Instituições de adoção, para que o primeiro contato dos interessados seja com as crianças disponíveis e não apenas com a agente social. Em segunda análise, também é de grande importância que haja acompanhamento psicológico para as famílias que já estão com uma criança adotada, a fim de que período de adequação seja bem-sucedido, considerando que ambos passaram por longo período de espera.