Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 02/09/2020

Em meados do século XX, o artista plástico Cândido Portinari retratou, na obra “Os retirantes”, uma família que sai de uma região à outra em busca de melhores condições de vida. Semelhante ao cenário evidenciado pelo autor, muitos brasileiros protagonizam, hodiernamente, uma peregrinação em busca de um lar para seu pleno desenvolvimento. As demandas para findar os impasses na adoção de crianças no Brasil, no entanto, são deturpadas devido à inobservância governamental e à lenta mudança da mentalidade social.

A princípio, a negligência do Estado é um fator relevante quando se observa o significativo número de crianças e jovens em acolhimentos institucionais. Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”, afirma que um governante tende a tomar decisões estratégicas que mantenham sua posição de liderança. Tendo isso em vista, é esperado que o investimento das autoridades em projetos que facilitem um processo seguro de adoção seja negligengiado em detrimento de pautas mais populistas, que garantem mais votos. Logo, a manutenção do poder de muitos gestores no Brasil ocorre às custas da falta de acolhimento familiar de cerca de 40 mil crianças e adolescentes, segundo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento.

Outrossim, é importante ressaltar que um grupo social que é limitado de receber seus direitos plenos de se desenvolver em um ambiente saudável representa um retrocesso no desenvolvimento coletivo. Consoante a Teoria do Habitus, de Pierre Bourdieu, nossas práticas e pensamentos são resultado de condições culturais específicas de um corpo social. Dessarte, o abandono de crianças maiores e adolescentes ao preferirem crianças menores, que ocorre repetidamente ao longo da história, ainda ecoa na atualidade, e gera um ciclo, no decorrer das gerações, que deve ser desfeito. Desse modo, ao terem barradas suas chances de viver em um lar pela lenta mudança da mentalidade social, o progresso social de muitos brasileiros é impedido.

Em vista desses fatos, é indubitável que medidas são essenciais para reverter a situação. Primeiramente, cabe ao Governo, por intermédio de projetos, revisar as leis e procedimentos adotivos burocráticos, com o objetivo de tornar mais fácil uma adoção segura de crianças e adolescentes. Ademais, cabe à mídia promover campanhas publicitárias que proporcionem informações sobre causa, para que mais pessoas conheçam o processo e se sensibilizem a colaborar. Assim, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, o Brasil do século XX.