Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 11/10/2020
O processo de adoção no Brasil parece, ao primeiro olhar, uma problema em vias de ser resolvido, afinal, há mais pessoas querendo adotar que crianças disponíveis para a adoção. Entretanto, um olhar mais minucioso observará que esta conta não fecha, pois há milhares de crianças sem a perspectiva de serem dotadas e diversos aspirantes adotantes há anos esperando uma criança compatível, sendo a incongruência dos desejos dos adotantes em relação ao perfil médio das crianças em abrigo e a cultura do filho adotivo como substituto do filho biológico como motivos dessa inconsistência.
Segundo o Cadastro Nacional de Adoção (CNA), o perfil médio da criança à espera de uma nova família é um candidato com mais de quatro anos de idade, preto ou pardo e tendo irmãos também em abrigos. Contudo, quando se leva em consideração o perfil de crianças que as pessoas cadastradas no CNA estão dispostas a adotar, nota-se uma incongruência entre o perfil desejado e a realidade das crianças em abrigo, pois grande parte dos adotantes procuram uma criança menor de quatro anos e não estão dispostos a adotar aqueles que possuem irmãos. Além disso, ao menos um terço dos cadastrados procuram crianças brancas, que são minoria nos abrigos. Tal situação, se não resolvida, tende a só se agravar com a crise econômica e aumento da pobreza no Brasil, fazendo a possibilidade de se adotado um privilégio de algumas crianças de perfil específico em abrigos pelo país.
Além disso, ainda persiste no Brasil a cultura do filho adotivo como substituto do filho biológico quando este se torna impossível de ser concebido, pois, segundo um artigo da Revista de Estudos e Pesquisas em Psicologia, cerca de oitenta por cento das pessoas que querem adotar têm como motivo a impossibilidade de gerarem um filho biológico. Ainda nesse sentido, aqueles que buscam adotar por estas razões têm preferência por um bebê que tenha características físicas parecidas aos que pretendem adotar, algo longe de ser predominante nos indivíduos em abrigos, como dito anteriormente. Tal situação demonstra que a cultura do filho adotivo como substituto ainda predomina no Brasil, trazendo ainda mais obstáculos para um processo de adoção bem-sucedido no país.
Nesse contexto, urge-se que o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos adicione no currículo dos cursos ministrados para adotantes palestras, com assistentes sociais e psicólogos, que abordem sobre a atual situação das crianças em abrigo, desfaça mitos sobre a adoção e incentive a adoção tardia. Além desta medida, é imprescindível que o mesmo ministério crie um credenciamento especial para que o processo daqueles que desejam adotar crianças mais velhas e/ou com irmãos sejam mais rápido e burocraticamente mais acessível. Somente assim será possível garantir que a conta do sistema de adoção no Brasil feche de uma vez por todas.