Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 20/10/2020

As Dores da Adoção

Adotar uma criança ou um adolescente é uma tarefa assaz generosa. Trazer para a convivência familiar um pequeno ser desamparado é uma atitude enorme de grandeza e que gera uma luta constante de adaptação. Mas ao perceber a responsabilidade que os espera, os aspirantes a pais adotivos criam barreiras como forma de se protegerem do inesperado. Isso destrói possibilidades de adoção em sua plenitude.

Apesar do imenso desejo de acolher um ser já bem maltratado pela vida, os pais adotivos também são passíveis de errar. E erram pelo receio do que possa acontecer de ruim na futura relação. Segundo estatísticas do Conselho Nacional de Adoção, há quase dez vezes mais interessados em adotar do que crianças disponíveis. E mesmo assim, aqueles que podem, não querem trazer os irmão da criança optada, mesmo estando aptos à adoção. Esse fato faz com que seja mais penosa a interação no novo seio familiar (partindo da premissa que o pretenso adotado não esteja em primeira infância mais). Além de limitar o acesso aos parentes próximos que se encontravam na mesma situação, aumentando a sensação de abandono.

Analogamente, há o conforto psicológico dos futuros papais e mamães em abrigar somente seres com características pré-concebidas. Essa idealização, desmonta qualquer tentativa de aproximação de outras crianças, com parentesco ou não da imaginada. Este impasse não somente impede que haja novas adoções, mas também interferem na saúde mental dos pequeninos ao afastá-los daqueles que já possuem laços afetivos.

Jimi Hendrix dizia que “para mudar o mundo, você precisa primeiro mudar a sua cabeça”. Por isso, é evidente que os programas sociais designados à adoção e seus gestores (Organizações Não-Governamentais, Ministério Público e Serviço Social local), intercedam aos pretendentes pais adotivos fornecendo todo apoio psicológico possível a eles, em conjunto com o filho adotado, para em primeira análise, destruir qualquer idealização que impeça novas acolhidas. Como diz o psicólogo Luiz Schettini Filho: “Incomuns são as circunstâncias, não o afeto”. Que se cure preventivamente as dores da adoção então.