Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 11/11/2020

O curioso caso noticiado pela Gazeta do Povo: uma galinha em uma fazenda do interior de São Paulo adotou um pequeno grupo de gatinhos e agora ela cuida dos filhotes como se fosse a mãe verdadeira. Infelizmente, o ato exemplificado no mundo animal não é tão frequente nas relações humanas, visto que há vários impasses sociais para que pessoas em potencial consigam apadrinhar uma criança ou um jovem no Brasil. Nesse contexto, a perpetuação dessa realidade reflete um quadro desafiador, cuja raiz desse problema encontra-se atrelada à exigência da sociedade e promove consequências sociais.

Mormente, o principal impasse no que tange ao processo de adoção é a exigência das próprias pessoas. Nesse sentido, dados revelados em 2015 pelo CPS (Centro de Pesquisas Sociais) apontam que o perfil mais procurado entre as crianças brasileiras são as brancas, de preferência até os 5 anos e sem irmãos. Todavia, dados divulgados pelo mesmo instituto afirmam que o perfil do jovem órfão brasileiro é composto, majoritariamente, por negros com irmãos e que estão atingindo a adolescência. Dessa forma, isso evidencia que essa exigência é oriunda do racismo estrutural, uma vez que as pessoas priorizam as crianças brancas às negras ou desistem de adotar quando notam que o orfanato não possui aquelas que encaixam no perfil desejado, perpetuando com a desigualdade racial no Brasil.

Consequentemente, ao não ser adotada, a criança crescerá e eventualmente terá de sair do orfanato e enfrentar a dura realidade da sociedade. A esse respeito, o maravilhoso livro Capitães da Areia, escrito por Jorge Amado, retrata um grupo de jovens de diferentes realidades, alguns foram expulsos de casas, outros nunca foram adotados e uma minoria até fugiu de seus lares, mas todos eles compartilham uma coisa em comum: o ato de cometer pequenos furtos para que possam sobreviver. Nessa conjuntura, a realidade da obra do autor pode ser associada à realidade, na qual, muitas vezes, jovens que são rejeitados em orfanatos inserem-se na vida do crime ou em subempregos para que possam sobreviver, pois carecem de qualificação profissional, sendo essas as únicas alternativas.

Urge, portanto, uma solução definitiva para essa problemática. Para isso, cabe ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, vinculado ao Ministério da Educação, criar um pacote de incentivo à adoção, mediante campanhas emotivas e persuasivas na televisão, jornais, outdoors e criar escolas  técnicas dentro dos orfanatos ofertando cursos técnicos. Isso tudo será possível por meio do investimento da Secretaria do Tesouro Nacional que deverá enviar verbas para essas ações institucionais. Assim, espera-se que processos adotivos sejam intensificados e que, com qualificação, jovens que não forem adotados não adentrem na vida do crime.