Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 17/11/2020

A série “Anne with an E”, veiculada na netflix, narra a história de uma garota órfã que é rejeitada devido o seu sexo, a sua aparência, e retrata a humilhação enfrentada por ela na tentativa de se inserir na sociedade. Fora da ficção, isso não é uma realidade diferente, a adoção é um processo muito complicado por conta do preconceito, da busca de uma criança ideal, o que gera prejuízos no desenvolvimento dos órfãos, os quais por vezes se tornam adultos sem um acolhimento anterior.

De acordo com Augusto Cury, psiquiatra e escritor brasileiro, o sonho da igualdade só cresce no terreno do respeito pelas diferenças. Sob tal ótica, percebe-se a necessidade de uma mentalidade inclusiva. De forma contraditória a esse pensamento, observa-se a postura discriminatória dos indivíduos ao tentarem adotar. Nessa perspectiva, são estabelecidos rígidos requisitos e fatores como cor de pele, problemas de saúde, existência de irmãos limitam as chances de adoção. Prova disso é o fato de que existem um maior número de pretendentes para adotar em relação à quantidade de crianças disponíveis para adoção. Dessa maneira, o preconceito tem interrompido a expectativa de muitos órfãos, e o sonho citado por Cury torna-se mera utopia.

Deve-se ressaltar, ainda, os impactos causados na personalidade dos órfãos. Segundo Jordan B Peterson, psicólogo canadense e professor da Universidade de Toronto, é essencial de que na infância o indivíduo seja acolhido, sinta-se amado, visto que nessa fase são formadas as primeiras impressões sentimentais. No entanto, a infância dessas crianças tem sido marcada por abandono, solidão existencial, até violência e traumas que permanecem uma vida inteira. Desse modo, os órfãos encontram dificuldades em se desenvolver, formam-se adultos com manchas interiores profundas.

Evidencia-se, diante disso, que o preconceito tem sido um impasse no processo de adoção e isso causa danos aos indivíduos que estão em situação de serem adotados. Portanto, é fundamental que o Estado, em parceria com ONG’s (Organizações não Governamentais), busque combater essas raízes discriminatórias para alavancar os processos adotivos. Isso pode ser feito por meio de campanhas publicitárias que busquem sensibilizar o público-alvo, ao mostrar os prejuízos enfrentados pelos órfãos e a necessidade de valorizar o aspecto humano além de características superficiais, para que o preconceito deixe de ser uma barreira e as crianças possam ser amadas. Assim, o caso de Anne será uma realidade apenas ficcional e o processo de adoção será favorecido.