Impasses no processo de adoção no Brasil

Enviada em 14/12/2020

Desde o iluminismo, entende-se que uma sociedade só progride quando um se mobiliza com o problema do outro. No entanto, quando se observa a realidade enfrentada por crianças e adolescentes que vivem em orfanatos, verifica-se que esse ideal iluminista é constatado na teoria e não na prática. Uma vez que, devido aos impasses no processo de adoção no Brasil, esses jovens acabam passando toda sua infância e adolescência em abrigos públicos na espera por um lar. Sendo assim, convém analisar as falsas ideologias difundidas na sociedade e o seletivismo dos pretendentes à adoção como pilares fundamentais da problemática.

A princípio, é fulcral pontuar que, no Brasil, a adoção ainda é tida como um tabu em razão de falsas ideologias enraizadas no corpo social. Consoante à teoria do Habitus elaborada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, a sociedade possui padrões que são impostos, naturalizados e posteriormente reproduzidos pelos indivíduos. Dessa forma, é possível notar que a adoção no país é vista, muito mais, como uma saída para pessoas que não podem ter filhos, do que como uma ação de empatia para mudar a arealidade de uma criança ou adolescêntes. Segundo o assessor da Corregedoria Geral  da Justiça de São Paulo, Iberê de Castro, apenas 4% dos futuros pais adotivos aceitam crianças maiores de oito anos. Dessa forma, afirmando que grande parte das pessoas que estão na fila de pretendentes acreditam que haja uma idade máxima para que uma criança se torne seu filho, evidencinado, assim, a necessidade de uma conscientização social sobre a adoção.

Outrossim, vale, ainda, ressaltar as exigências estabelecidas pelos pretendentes à adoção, dentre as principais causas do problema. Conforme o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a falta de solidez nas relações sociais, políticas e ecônomicas são característica da ‘‘Modernidade Liquída’’ vivida no século XXI. Desse modo, ao analisar os padrões impostos pelos pais adotivos diante dos futuros filhos, constata-se que esses se assemelham à modernidade líquida de Bauman ao valorizar mais as coisas supérfluas como tom da pele, idade e parentesco do que a relação de pais e filhos poderiam criar. De acordo com os dados do Conselho Nacional de Justiça, existem, 5 mil jovens no Cadastro Nacional de Adoção e 46,2 mil pretendentes. Dessa maneira, fica claro que o problema não é a falta de pretendentes, mas sim, as exigências determinada por eles.

Portanto, medidas são necessárias para que a sociedade se aproxime dos ideais iluministas. Logo, as Instituições educacionais, com seu poder de transformação, devem inserir debates sobre a adoção nas salas de aulas, por meio de palestras ministradas por profissionais, a fim de diminuir falsas ideologias sobre o assunto, trazendo a tona a importância social dessa ação e conscientizando os cidadãos.