Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 11/12/2020
O renomado sociólogo Karl Marx, afirmava que ‘‘a atual realidade é historicamente construída’’. Por certo, é notório que essa análise condiz com a contemporaneidade, uma vez que os brasileiros possuem pensamentos eurocêntricos enraizados. Dessa forma, os reflexos do processo de Colonização portuguesa impactam no sistema de adoção, posto que existe forte preconceito em relação à constituição familiar, bem como alta seletividade do perfil do indivíduo a ser adotado.
A priori, é oportuno frisar que o processo de catequização, fundamentado nos princípios religiosos e dogmáticos, foi extremamente desrespeitoso com a cultura dos ameríndios, dado que impuseram seus ideais, incluindo o modelo estrutural familiar. Nesse contexto, os impasses para casais homoafetivos e, ademais, as mães e pais solteiros sofrem diretamente, pois, constituem algo fora do padrão do catolicismo, marido, mulher e filhos consanguíneos. Desse modo, o preconceito é instaurado de maneira natural, a ponto de passar despercebido hodiernamente. Por conseguinte, o grande problema não é as obrigatoriedades dos processos seletivos, mas sim o impedimento ou lento período de liberação para pessoas aptas à adoção. Logo, com base na avaliação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, em relação aos trinta mil inscritos no Conselho Nacional de Adoção 57%, pertence ao grupo LGBT e, dos que estão nessa porcentagem, 33% são indeferidos. Em suma, é visível que o preconceito sustenta a dificuldade de adoção, visto que criam barreiras para aqueles que estão qualificados.
A posteriori, convém ressaltar que os padrões estereotipados que o corpo social seleciona como pré-requisitos destoa da realidade de uma população miscigenada. Sob tal ótica, os brasileiros, são majoritariamente pessoas negras, pardas e indígenas. Por consequência, segundo a CNA 65% das crianças e adolescentes que estão na fila de adoção são o oposto do que 62% dos adotadores querem, filhos brancos e preferencialmente recém-nascido ou menores de cinco anos, porém, somente 9% enquadra nessas condições. Logo, analisando a concepção do antropólogo Frantz Fanon, a herança histórica promove o padrão sociocultural e essa separação étnica-racial, que inviabiliza a inter-relação entre a humanidade, além de dificultar a reintegração e aumentar o paradigma supracitado.