Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 30/12/2020
O Super-Homem, idealizado pelo célebre filósofo Nietzsche, caracteriza o indivíduo capaz de livrar-se das amarras sociais. No entanto, quando se analisa os impasses no processo de adoção de crianças no Brasil, percebe-se que o ideal proposto pelo autor está distante da realidade social dos brasileiros. Situações como essas são potencializadas ora pela inércia estatal, ora pela busca “padronizada” de adoções.
Em primeira análise, fundamentando-se na Teoria do Corpo Biológico proposta pelo sociólogo Émile Durkheim, a sociedade atual funciona como um corpo humano: é necessária a atuação de todos os órgãos em prol do seu pleno funcionamento. Contudo, o Poder Público configura-se como um órgão falho, uma vez que os investimentos destinados a campanhas publicitárias para que acelerem as doações são ínfimos. Consequentemente, sem o devido incentivo estamental, os processos de adoções são longos e desgastantes, fator que propicia a desistência dos futuros pais e a permanência dos jovens nos abrigos continuam.
Outrossim, o defunto-autor Brás Cubas, do realista Machado de Assis, diz em suas Memórias Póstumas que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado de sua miséria. Talvez, hoje, ele percebesse acertada sua decisão, uma vez que um fator determinate para a permanência de longas filas de esperas por adoções são a busca padronizada da população, que estão sempre em busca de crianças de pele clara, com até 1 ano de idade e que não possua irmãos. Sob esse viés, de acordo com os dados do Cadastro Nacional de Adoção quase 66% dos brasileiros dispostos a adotar não querem acolher irmãos, tal dado evidencia o descompasso entre o perfil desejado de futuros pais diante dos futuros filhos adotivos.
Diante do supracitado, medidas são necessárias para que haja a mitigação desse impasse. Para tanto, urge que o Estado, por meio de verbas governamentais, invista em propagandas que orientem e que incentivem a adoção de crianças e de adolescentes, com o intuito de que essa prática se torne mais rotineira entre os brasileiros e os processos adotivos sejam menos burocráticos para que haja menos desistência de futuros pais. Ademais, é importante que a população seja conscientizada acerca da necessidade de adoção e que não invista na busca padronizada, por intermédio do incentivo de programas que evidenciem a importância da diferença e a necessidade de adotar pessoas de todas as idades e que crianças que possuam irmãos sejam adotados juntos, com o intuito de que mais pessoas sejam adotadas e mais pessoas tenham famílias. Com isso, o ideal de Nietzsche será concretizado.