Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 30/12/2020
De acordo com a filósofa Hannah Arendt, a pluralidade faz parte da condição humana e deve, portanto, ser respeitada. No entanto, essa plena aceitação da diversidade não se observa no que tange à questão da adoção no Brasil. Nesse contexto, a questão da adoção configura-se como uma problemática no Brasil, seja pela seletividade das famílias que desejam adotar, seja pelo excesso de burocracia.
Em primeiro análise, a preferência por crianças de etnia branca e recém nascida torna o processo de adoção muito restrito. Tais especificações configuram-se como um problema visto que impactam diretamente na vida de milhares de crianças que, por não corresponderem a padrões pré-selecionados, seguem às margens da sociedade. Essa visão limitada de quem deseja adotar pode ser comparada a Caverna Platônica, em que o homem se vê acorrentado a sua forma de pensar e torna-se incapaz de olhar para fora e aceitar outras realidades. Sendo assim, devido ao preconceito existente na sociedade brasileira, inúmeras crianças e adolescentes seguem sem um lar e uma família para ampará-los.
Além disso, a demora no processo de adoção, desde a demonstração do interesse até a conclusão, desestimula ou até causa a desistência em muitos futuros pais. Isso ocorre, pois, muitas vezes, ao se conscientizar da grande via burocrática do sistema, a família em questão perde o interesse já que, além de ter que esperar por um tempo indeterminado, não há a certeza de que o processo será concluído. Esse cenário corrobora o conceito de “corpo biológico” do sociólogo Durkheim ao afirmar que, a sociedade é composta por partes que interagem entre si, como um corpo biológico. Tal analogia fica clara ao analisar que, quanto maior o processo burocrático, menos pessoas conseguem realizar a adoção e, devido a isso, mais crianças ficam à margem da sociedade.
Evidencia-se, portanto, a necessidade de modificar a forma de pensar daqueles que desejam adotar uma criança. Para isso, o Governo Federal - por meio do Ministério da Cultura em associação as emissoras de tv aberta - deve formular comerciais que abordem o tema da seletividade na hora da adoção e, além disso, introduzir o tema em séries e novelas para conseguir conscientizar as famílias a serem mais flexíveis com suas exigências na hora da adoção. Assim, será possível que a diversidade abordada por Hannah Arendt seja, finalmente, aceita por todos e mais crianças possam ter uma família e um convívio social saudável.