Impasses no processo de adoção no Brasil
Enviada em 14/01/2021
Na série “O Gambito da Rainha”, a fala de uma adolescente negra corrobora as dificuldades da adoção: “Ninguém vai vir atrás de nós. Estamos velhas demais. Ou pretas demais”. Infelizmente, tal questão transcende a arte e mostra-se presente na realidade brasileira, devido não só à seletividade dos pais, mas também, à ineficiência do Estado. Assim, cabe a análise acerca de causas, consequências e possível solução da problemática.
Em primeira análise, é imperioso destacar que os impasses no processo de adoção é fruto de uma busca seletiva e um olhar preconceituoso. Isso se torna mais claro, por exemplo, ao se observar os dados do Cadastro Nacional de Adoção, em que grande parte dos pretendentes desejam adotar crianças de até 4 anos de idade, brancas, sem irmãos e saudáveis. Dessa maneira, esse panorama fomenta um maior tempo de espera para conseguir um lar para a criança, que pode continuar em abrigos até completar 18 anos. Verifica-se, portanto, o impacto dessa seletividade injusta que inviabiliza a criação do sujeito em uma estrutura familiar, base para a formação de qualquer indivíduo.
Outrossim, é imperativo pontuar que as dificuldades no processo de adoção deriva, ainda, da ausência de eficiência do governo. Segundo Abraham Maslow, em sua pirâmide da hierarquia das necessidades humanas, para o indivíduo alcançar a realização pessoal é preciso passar pela socialização primária, inerente ao aspecto parental. No entanto, as crianças que vivem em abrigos são privadas desse meio de socialização, uma vez que não possuem vínculo familiar. Infelizmente, esse cenário perpetua na realidade brasileira, visto que profissionais não têm um olhar de preocupação, colocando a prole à margem da situação e, consequentemente, dificultando seu desenvolvimento na sociedade.
Torna-se evidente, portanto, que os obstáculos no processo de adoção são nocivos à construção social do indivíduo. Sendo assim, cabe à sociedade civil organizada, mediante o apoio de ONGs - terceiro setor -, comunicar sobre a importância da adoção de crianças fora dos padrões. Isso será feito por intermédio de palestras na comunidade e em lares adotivos, no fito de desconstruir a visão seletiva de futuros adotantes. Além disso, é mister que o Poder Legislativo crie ações afirmativas, seguido da efetivação das leis pelo Judiciário, a fim de reduzir o número de crianças em abrigos e, posteriormente, formar cidadãos completos na pirâmide de Maslow.