Inclusão digital: uma meta do Brasil contemporâneo

Enviada em 02/06/2020

Em meados do século XX, o artista plástico Cândido Portinari retratou, na obra “Os Retirantes”, uma família de sai de uma região a outra em busca de melhores condições de vida. Semelhante ao cenário evidenciado pelo autor, muitos brasileiros protagonizam, hodiernamente, uma peregrinação em busca da superação da exclusão digital no Brasil. Tal fator, que corrobora a redução da desigualdade social no país, no entanto, é deturpado devido à inobservância governamental e ao difícil acesso de muitos ao meio tecnológico.

A princípio, a negligência do Estado é um aspecto relevante quando se observa a desigualdade de acesso à internet na sociedade. Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”, afirma que um governante tende a tomar decisões estratégicas que mantenham sua posição de liderança. Tendo isso em vista, é esperado que a promoção de projetos que ofereçam condições para inclusão da comunidade no meio digital seja negligenciada em detrimento de pautas mais populistas, que garantem mais votos. Logo, a manutenção do poder de parte dos gestores no Brasil ocorre às custas da desinformação e da ignorância da sociedade.

Outrossim, além do descaso do sistema público, a questão tem como agravante as oportunidades perdidas pela falta de acesso ao meio digital. Consoante o conceito de “capital cultural”, de Pierre Bourdieu, determinadas práticas são acessadas majoritariamente por camadas sociais mais elevadas da sociedade, o que contribui para a distinção de classes. Dessarte, com o advento da tecnologia, práticas como ofertas de emprego, inscrições em atividades e cursos profissionalizantes tornam-se cada vez mais digitalizados, e deixam pessoas que não têm acesso à internet marginalizadas da possibilidade de ascensão social. Assim, ao ser impossibilitada de acessar oportunidades exclusivas do meio tecnológico, parte da população fica refém da própria condição se não houver interferência para mudar o cenário.

Em vista desses fatos, é indubitável que medidas são essenciais para reverter a situação. Primeiramente, cabe ao Governo investir em locais que ofereçam acesso à internet gratuita com computadores e profissionais qualificados que instrua a população a fazer inscrições, cursos e entrevistas de emprego, para que as oportunidades sejam aproveitadas de forma democrática por toda população. Paralelamente, cabe às escolas promoverem aulas extracurriculares de informática, para que, ao ampliar o uso e o aprendizado desse meio, possam contribuir para a melhoria de vida de muitos alunos. Desse modo, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, Brasil do século XX.