Influenciadores digitais e seu impacto nas decisões de consumo

Enviada em 29/08/2021

Em “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago desenvolve uma narrativa trágica centrada na crítica ao estado de irreflexão da sociedade pós-moderna, por intermédio de uma epifânica cegueira que acomete os indivíduos do meio social. Ao considerar tal sintoma para fundamentar a discussão sobre os influenciadores digitais e seu impacto nas decisões de consumo, vê-se que o corpo social hodierno desenvolveu uma cegueira moral ao não refletir sobre as consequências da exposição excessiva ao conteúdo desses formadores de opiniões. Nessa perspectiva, cabe analisar de que forma a criação de padrões é um entrave, bem como esclarecer a necessidade de educação digital no país.

A priori, é preciso reconhecer que os influenciadores digitais criam padrões de consumo que moldam o estilo de vida dos indivíduos, devido a forte conexão com o público. Nesse sentido, atesta-se a percepção de Saramago, na medida em que a sociedade tornou-se cega ao consumir de maneira acrítica, baseando seus atos na opinião desses influenciadores. Há, evidentemente, a partir disso, a constante busca por seguir tais padrões, como, por exemplo, em relação à moda e a procedimentos estéticos, gerando uma falsa realidade. Dessa forma, vê-se prejuízos principalmente para os jovens, que podem desenvolver baixa autoestima e outros transtornos.

Outrossim, é válido ressaltar que a educação digital é de suma importância para fomentar uma maior crítica social acerca dos comportamentos consumistas que são influenciados no meio digital. Sob essa ótica, ganha voz a percepção do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na obra “O mal estar da pós-modernidade”, ao discorrer sobre as chamadas “instituições zumbis”, organismos sociais que, embora importantes, perderam, com o tempo, a forma. À luz dessa ideia, torna-se notório que o Estado tornou-se uma instituição zumbi visto que as políticas de educação digital são precárias e não atendem a todos os indivíduos. Logo, há a perpetuação de decisões de consumo sem uma profunda análise crítica e a constante formação de padrões pelos influenciadores.

Assim, diante dos argumentos supracitados, é preciso concentrar esforços em solucionar esse impasse. Deve-se, então, pontuar que cabe ao Ministério da Educação, órgão responsável pela formação dos cidadãos, a tarefa de inserir a educação digital no cotidiano de crianças, adolescentes e jovens de todo o território nacional. Isso se daria a partir de seminários, rodas de conversa e debates com profissionais relacionados ao meio digital e a saúde mental, que seriam inseridos na grade curricular obrigatória. Essa proposta apresenta como finalidade a formação de indivíduos com uma maior capacidade crítica, aptos a lidar com a exposição a influenciadores digitais. Espera-se que, com ações desse tipo, finde-se a cegueira da razão no Brasil.