Intolerância e discurso de ódio contra minorias

Enviada em 02/07/2019

Na visão do filósofo inglês John Locke, cabe ao Estado a proteção a todos os indivíduos, bem como a garantia à vida, à liberdade e à propriedade, que são direitos inalienáveis. Contudo, observa-se que a intolerância e o discurso de ódio praticados contra as minorias evidenciam que tais prerrogativas não são respeitadas. Isso se deve à falta de atitude do governo e à compactuação da sociedade, que demonstram a necessidade de mudanças.

Como primeira constatação, nota-se que recorrência da intolerância vivida pelas minorias é fomentada pela incapacidade das esferas públicas de exercerem seu poder simbólico e a garantia dos direitos constitucionais. Esse fato decorre da histórica inabilidade estatal em promover medidas protetivas às vítimas da violência e da exclusão social, tais quais, a criação de canais de denúncia e de locais de acolhimento, o que diretamente contribui para a perpetuação da problemática. Nesse contexto, parafraseando Chico Xavier, a omissão de quem pode e não auxilia o povo é comparável a crime que se pratica contra a comunidade inteira. Dessa maneira, a imprescindibilidade de superação desse paradigma configura-se como um importante desafio da pós-modernidade.

Vale ressaltar, ainda, as implicações advindas da compactuação da sociedade que possui estreita relação com o aumento de casos de discurso de ódio às minorias. Essa motivação, dentre outras razões, pode ser explicada por medo de se envolver ou por uma atitude cultural de acomodação. Nesse sentido, em um artigo publicado pela revista Le Monde Diplomatique, o antropólogo e cientista político Sílvio Brava afirma que o aprofundamento da aversão a esses grupos, no Brasil, adquiriu contornos preocupantes ao atingir um crescimento de 57% na última década, com claras perspectivas de agravamento do quadro. Desse modo, a sociedade torna-se a principal vítima de suas próprias contradições, omissões e condutas.

Infere-se, portanto, que a falta de atitude do governo, em paralelo à omissão da sociedade, são importantes vetores da problemática. Destarte, é imperativo que o Ministério da Educação, em parceria com as instituições de ensino, implemente núcleos de debates e divulgação sobre esse assunto, os quais devem discorrer informações e esclarecimento de dúvidas, além de buscar um consenso, na tentativa de encontrar uma solução tangente aos dramas encarados pelas minorias. Além disso, a mídia, consciente de seu papel social, deve buscar a maior informatividade e construção de postura crítica da população, ao divulgar projetos que incentivem o respeito à igualdade de cada cidadão. Ao agir assim, o Estado idealizado por Locke será real e a construção de uma sociedade em que a paz seja um valor substancial será uma realidade empírica, não um ideal ou uma utopia.