Intolerância e discurso de ódio contra minorias
Enviada em 07/04/2021
No livro Metamorfose, de Franz Kafka, Gregor Samsa acorda uma manhã, inesperadamente, transformado em um inseto ‘‘monstruoso’’, por conta disso, ele é excluído do círculo familiar e passa os dias encarcerado até a sua morte. O que exemplifica como o dissonante ao ‘‘ideal’’ é tratado pela sociedade. Hodiernamente, Gregor seria representado pelas minorias sociais que, devido a uma historicidade discriminatória, são vítimas da intolerância e do discurso de ódio por grupos ou pessoas que rechaçam sua presença no meio social, o que provoca consequências tanto a esfera subjetiva quanto a intersubjetiva.
Em primeiro lugar, a recusa ao convívio com minorias decorre do caráter preconceituoso da sociedade. Ao longo da história, mulheres, negros, homossexuais e toda sorte de grupos foram marginalizados pela associação de suas características a signos pejorativos. Nesse contexto, o conceito de Habitus Social, de Pierre Bourdieu, torna-se premente: aquele define os esquemas de percepção e de agir dentro do espaço social por meio do conhecimento adquirido ao longo da socialização. Assim, uma vez que consciências intolerantes são construídas, é possível evitá-las ao ensinar o respeito à multiplicidade desde a mais tenra idade.
Em segundo plano, a verbalização do ódio afeta psicologicamente os indivíduos estigmatizados, visto que a discriminação por características intrínsecas provoca sentimentos de inferioridade e por consequência o questionamento da própria identidade. Por exemplo, no filme Moonlight - Sob a Luz do Luar, Chiron é perseguido na escola por ser homossexual, o que se reflete numa dificuldade para aceitar sua orientação sexual assim como para relacionar-se. Outrossim, ao não haver diálogo entre partes da sociedade não é possível buscar o bem comum social, objetivo da ação comunicativa conforme Jürgen Habermas. Dessa forma, os muros da intolerância prejudicam não somente o indivíduo como também a comunidade.
Depreende-se, portanto, a necessidade de medidas para mitigar essa problemática. Para tanto, o Ministério da Educação deve incentivar as escolas, tanto do ensino fundamental como do ensino médio, a reservarem um período na semana para atividades lúdicas que visem desenvolver a empatia e o respeito à diversidade. De modo a demonstrar que os indivíduos são mais complexos do que os esteriótipos limitantes e que, independemente das diferenças, a unidade primária ainda está presente: o ser humano. Para que assim, a interlocução possa existir entre todas as partes da sociedade, e as minorias sociais - e insetos monstruosos - sejam respeitadas.