Intolerância e discurso de ódio contra minorias
Enviada em 07/08/2021
No livro “O Cidadão de Papel”, o jornalista Gilberto Dimenstein afirma que a cidadania brasileira é de papel, ou seja, prende-se apenas ao aspecto formal e não é concretizada. Sob essa ótica, o hodierno contexto de intolerância e dos discursos de ódio vai ao encontro da denúncia feita por Dimenstein, visto que tal situação é reflexo do problema apontado e representa um atentado à liberdade individual. Isso ocorre, sobretudo, devido a uma base educacional lacunar e à negligência estatal.
Mormente, é válido ressaltar que a ausência de uma educação inovadora é uma das causas para surgimento do desrespeito social. Nessa perspectiva, o pedagogo Paulo Freire, na obra “A Pedagogia do Oprimido”, destaca que o papel do ensino é formar indivíduos com uma mentalidade crítica, tornando-os aptos a identificar e solucionar as mazelas da sociedade. Sob esse viés, é possível perceber que a atual metodologia de ensino aplicado nos centros escolares não compactua com as ideias de Freire, uma vez que os estudantes não são instruídos a refletir sobre as ideologias nocivas a pluralidade cívica e, consequentemente, tornam-se propensos a absorver preconceitos contra grupos minoritários. Dessa forma, a possibilidade de novos soldados do ódio emergirem se torna maior e o imbróglio é intensificado.
Outrossim, o descompromisso das instituições públicas no que tange a defesa da Lei Máxima viabiliza o aparecimento de um ambiente marcado pela raiva e antipatia. Sobre isso, a Constituição Federal, no Artigo 5°, postula que todos os membros da nação possuem direito à isonomia e, por conseguinte, dispõe das mesmas liberdades. Todavia, é perceptível que esse preceito não está sendo posto em prática, tendo em vista a descontrolada frequência de atentados contra negros, homossexuais e mulheres que ocorrem no cotidiano nacional. Dessa maneira, um espaço permeado pela impunidade é construído no país, no qual alguns membros do corpo social se sentem seguros para praticar atos de desprezo e maldade.
Torna-se imprescindível, portanto, combater a conjuntura de intolerância e de agressão contra os grupos socialmente excluídos. Para isso, é papel do Ministério da Educação - órgão responsável pelas políticas educacionais - elaborar uma nova matéria escolar comum chamada “Cidadania e Direitos Sociais”, por meio da contratação de profissionais competentes na área, a fim de guiar a juventude a refletir sobre a importância do respeito com o próximo. Ademais, as organizações não governamentais devem promover manifestações pacíficas, com o objetivo de cobrar do poder público um comprometimento com a legislação. Assim, quiçá um dia o impasse apontado por Gilberto Dimenstein possa ser solucionado.