Intolerância e discurso de ódio nas redes sociais

Enviada em 25/08/2018

Segundo o filósofo britânico John Mill, existe um único motivo que pode levar a sociedade a interferir no direito da liberdade de expressão: impedir o dano a outrem. Dessa forma, se estabelece um paralelo de tal afirmação com a crescente confusão entre livre manifestação das opiniões e o discurso de ódio no espaço ‘online’, maximizada por meio da possibilidade de anonimato nas redes sociais e da geração egocêntrica do século XXI, o que resulta em episódios de violência violadores dos direitos humanos e da dignidade dos cidadãos.

Para Mary Del Priore, a violência é um desdobramento da sociedade hipermoderna que fragiliza os laços sociais e se estabelece como produto do individualismo. Nessa perspectiva, os indivíduos da atualidade respeitam cada vez menos a liberdade de expressão na ‘web’ como um direito que possui seus limites e responsabilidade de preservar a humanidade do próximo, uma vez que estão cercados por uma bolha virtual de pessoas que compartilham somente uma visão comungadora com a sua própria, por um culto ao ego expoente com as ‘selfies’ e a necessidade de receber visibilidade e elogios acerca de seu próprio eu, que aumentam a intolerância às diferenças na internet.

Assim, casos como o da atriz brasileira Taís Araújo, que sofreu vítima de crime de ódio racista por meio de comentários preconceituosos no seu Facebook no ano de 2015, são cada vez mais recorrentes. A cultura do individualismo e a oportunidade de não se identificar ao comentar nas redes sociais viabiliza a exteriorização da suposta superioridade de alguns seres sobre outros com base em características físicas, orientação sexual, opinião política, classe social e até mesmo gênero, que podem gerar sequelas graves nas vítimas, como distúrbios psicológicos, depressão, complexo de inferioridade, suicídio e a fomentação de mais violência, intolerância e irrespeito na sociedade.

Destarte, é necessário que o Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Comunicação, mediante o direcionamento de verbas, promovam fins de semana culturais na urbe com palestras ministradas por psicólogos, antropólogos e advogados especialistas em crimes da internet, para a desestigmatização de conceitos vinculados ao individualismo, como a pressuposta superioridade de características socioculturais e para a explanação dos problemas vinculados a prática da intolerância e da cultura de ódio na internet, com o fito de reverter o quadro crescente de vítimas dessa injúria, garantir a não violação dos direitos humanos e da dignidade dos cidadãos no espaço ‘online’ e estabelecer um ambiente social e virtual saudável, sem preconceitos. Espera-se, por intermédio dessa ação, que a falta de tolerância na internet não seja mais uma chaga social brasileira.