Intolerância e discurso de ódio nas redes sociais
Enviada em 21/10/2018
O quadro “Liberdade guiando o Povo”, do pintor francês Delacroix, em que são vistos cidadãos armados com sua bandeira nacional, evoca a Revolução Francesa do século XVIII, cujo preceito máximo fora “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Tal evento inspirou às democracias contemporâneas, a exemplo do Brasil. Sob o viés da obra, é possível aludir a esse, em que hodiernamente sua população associam armamentos ao direito de expressão, visto que ofensas se tornam subterfúgios a opiniões contrárias. Logo, nota-se uma contradição dos anseios de equidade de vários séculos quando o discurso de ódio permeia as relações pessoais no país. Primeiramente, na conjuntura nacional, o preceito de isonomia de direitos propostos pela Constituição Federal se mostra infértil quando analisado o fundamentalismo que domina nas discussões de autoridades públicas. Por exemplo, em época de eleições, nos debates entre presidenciáveis são recorrentes ataques, ofensas e exaltações em meio à exposição de cada plano político ao povo. Dessa forma, sob a perspectiva do pensador italiano Antonio Gramsci - ferrenho opositor do regime fascista em seu país e repressão de grupos opositores- quando esse tece que todos os humanos são intelectuais, embora poucos usem dessa função, o povo, ao cultivar extremismos, apenas demonstra sua irracionalidade. Outrossim, a nação caminha à intransigência a qual se pensava ter rechaçado do país com o fim da Ditadura Militar de 1964-1985. Ademais, devido à sensação de anonimato e blindagem que as redes sociais dão aos seus usuários, o descaso com a dignidade do próximo cresce exponencialmente. Outra menção relevante é a da morte da vereadora do partido PSOL, Mariele dos Santos, que gerou uma onda de celebrações online pelos opositores ao seu ativismo pró favelados, mulheres, negros e LGBTs, é nítido o desrespeito a sua pessoa, família e amigos. É, assim, clara a falta de alteridade, tal como o pensador argelino Albert Camus propôs e: “A experiência não pode ser criada. É preciso passar por ela”, apenas com o conhecimento do repertório de outrem é possível a tolerância. Além da prática civil, a omissão do Estado, enquanto promotor dos Direitos Humanos, também colabora para a permanência desse entrave. Destarte o cenário hostil, urge-se a mobilização do povo e do Governo. Nessa perspectiva, o Primeiro Setor deve legitimar sua Carta Magna ao identificar e intervir nas ameaças à liberdade de expressão. Para tal, esse pode, em ação conjunta das redes sociais de maior alcance nacional, efetivar ferramentas digitais de denúncia das ocorrências reais e virtuais, sem distinguir personalidades públicas de civis, fará com que a lei tenha maior alcance. Somente, contudo, em ação sinérgica com a educação, através da homologação do Ministério da Educação de manter a Filosofia na Base Nacional Curricular, e a capacitação dos professores com workshops, pode-se seguir o exemplo da série catalã “Merlí”, em que mostra a abordagem das pertinências dos jovens em um ambiente de catarse para que opiniões extremistas possam ser analisadas e ter alternativas formuladas, ao mostrar em grupo os perigos da unilateralidade. Enfim, assegurar-se-á a voz de todos. respaldado o direito de concordar ou não com algo.