Intolerância e discurso de ódio nas redes sociais

Enviada em 25/09/2019

No conto O Espelho, de Machado de Assis, Jacobina dizia que não discutia nunca, já que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial. Quando analisada sob a ótica de Jacobina, a realidade virtual brasileira, antro de calorosas discussões, revela-se um local de propagação de ódio. Isso ocorre devido a amplificação dadas pelas redes às intolerâncias já existentes e pela legitimação dos discursos por parte de figuras públicas.

Em primeiro plano, é preciso ressaltar que os discursos de ódio vistos na internet são problemas já recorrentes na sociedade, porém se tornam mais inflamados e ganham mais evidência no meio virtual. Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, retrata o brasileiro como o homem cordial. Esse conceito, porém, se torna muito distante nas redes sociais. Estar atrás das telas traz aos internautas a sensação de impunidade que estimula os discursos e torna o Brasil, segundo a pesquisa da Norton Cyber Security, o segundo país com maior número de crimes cibernéticos. Percebe-se, assim, que as postagens racistas, homofóbicas e misóginas funcionam como um espelho para a verdadeira face do brasileiro.

Ademais, urge analisar que os discursos de figuras públicas muito influenciam na propagação de ódio nas redes. Quando personalidades, principalmente do poder público, declaram abertamente suas intolerâncias, o discurso discriminatório pode se tornar legitimado. Com isso, há uma grande disseminação dessas falas que alimentam fóruns na internet conhecidos pela concentração de preconceitos e pelo encorajamento de atos de violência. Como ocorreu nos Estados Unidos, em que o presidente Trump, que deixa clara sua aversão à imigrantes, principalmente mexicanos, assistiu o ataque em El Paso que deixou mortos sete cidadãos mexicanos em agosto de 2019. Com esse episódio, a influência das polêmicas falas do presidente ficou clara, já que seu discurso autoriza a xenofobia no país.

Em suma, medidas devem ser tomadas a fim de mitigar a intolerância nas redes sociais. Sabendo que em 2014 foi criado o Marco Civil da Internet (lei que regulamenta a utilização da internet no Brasil), destrói-se, então, o mito da impunidade de crimes cometidos no meio virtual. Com isso, para a garantia da lei, o Estado deve instaurar delegacias amparadas com especialistas cibernéticos e tornar urgente o combate aos crimes impróprios, aqueles que a internet age apenas como facilitadora, como o racismo, a homofobia e ameaças. Dessa forma, espera-se que o brasileiro se torne mais próximo do homem cordial na vida real e na virtual.