Intolerância e discurso de ódio nas redes sociais

Enviada em 11/10/2019

De acordo com o filósofo Jurgen Habermas, a democracia só seria consolidada a partir do momento em que as relações humanas fossem alicerçadas em um espaço comunicativo crítico e pluralista para o entendimento reciproco das concepções interpessoais. Entretanto, tal compreensão dialógica não encontra amparo quando se visualiza a expressividade dos discursos ofensivos nas redes sociais, uma das faces mais perversas de uma sociedade em desenvolvimento, o que se deve a fatores como a permanência de uma cultura preconceituosa e a suposta normalidade dessas ações em rede.

É importante considerar, de início, a estruturação discriminatória da coletividade como alicerce para atitudes desrespeitosas na internet. A esse respeito, de acordo com o filósofo Foucault, “normal” seria tudo aquilo que está dentro das normas sociais, já “anormal” aquilo que é marginalizado, logo, tudo que foge dos padrões é segregado. Sob esse prisma, tal concepção abordada pelo autor materializa-se, na medida em que, as redes sociais, reflexo verossímil do seu entorno social, são constantemente enraizada em discursos intolerantes e ideários racistas e misóginos, tendo em vista a permanência de um padrão social que estigmatiza indivíduos com comportamentos e ideologias “anormais”.                          Outrossim, é factível que a suposta normalidade e a disseminação instantânea de conteúdos hostis são igualmente fatores dos agravos desse contexto. Nesse sentido, em conformidade com o conceito de “banalidade do mal”, proposto pela filósofa Hannah Arendt, a pior maldade deriva da irreflexão. Dessa maneira, a constante falta de criticidade populacional na ocorrência de atitudes cotidianas e aparentemente inocentes, como curtidas e compartilhamento de postagens relacionadas ao cyberbulling, por exemplo, refletem diretamente na persistência de contextos que reiteram falas discriminatórias. Com efeito, percebe-se o quanto a escassez de uma cosmovisão social reflexiva sustenta a trivialidade dos discursos ofensivos na internet.

É imperioso, portanto, mecanismos energéticos no embate dessa realidade. Assim, cabe ao Ministério da Justiça, em paralelo com sistemas de denúncia (disque 100), promover a solidificação  de mecanismos mais efetivos no combate a ideais ofensivos nas redes. Isso pode ser concretizado por intermédio da estruturação de delegacias físicas e virtuais no atendimento e monitoramento de crimes na internet, por meio de agentes especializados nessas ações, e teria a finalidade de amparar de forma mais resiliente esse panorama e evitar a impunidade. Enfim, a partir da integração de um pensamento crítico de respeito à diversidade, poder-se-á, gradativamente, sob a ótica da teoria de Hannah Arendt, cristalizar uma nação livre das mazelas da intolerância.