Intolerância e discurso de ódio nas redes sociais
Enviada em 08/06/2020
Em “A República”, o filósofo grego Platão idealiza uma cidade livre de desordens e problemas, em que o povo trabalha em conjunto para superar todos os impasses. Fora da ilustre produção literária, com ênfase na sociedade brasileira moderna, nota-se o oposto dos ideais de Platão, um vez que os frequentes discursos de ódio nas redes sociais representam um obstáculo de grandes proporções. Isso se evidencia, não só pela sensação de impunidade no espaço digital, como também pela disseminação instantânea de conteúdos danosos à coesão e ao equilíbrio social.
Deve se pontuar, de início, que a criação da internet e a facilidade de acesso aos meios de comunicação promoveram novas ferramentas para perpetuação de ideologias intolerantes. Deste modo, a possibilidade de anonimato e a crença equivocada de que a legislação não se aplica às posturas on-line estimulam muitos indivíduos a expressaram pensamentos preconceituosos. Contudo, o mais preocupante é que as pessoas estão confundindo a liberdade de expressão com a invasão do espaço do outro com comentários discriminatórios. Assim, por consequência, o ambiente virtual está cheio de ideologias racistas, misóginos e homofóbicos.
Vale ressaltar, também, que a rápida propagação e as dificuldades para retirar tais conteúdos do âmbito cibernético ampliam, sobremodo, os efeitos nocivos das falas discriminatórias. De acordo com o conceito de “banalidade do mal”, proposto pela filósofa alemã Hannah Arendt, a pior maldade deriva da irreflexão. Acerca dessa lógica, práticas rotineiras e que aparentam ser inofensivas, como curtidas e compartilhamento de publicações relacionadas ao “cyberbullying”, por exemplo, são prejudiciais e encorajam a persistência de tais ações. À vista disso, é preciso repensar comportamentos diários, para erradicar essa problemática.
Compete, dessa forma, às corporativas responsáveis pelas redes sociais elaborar mecanismos de denúncia, além de criar programas para detectar rapidamente postagens irregulares, assim podendo retirá-las de circulação. A partir disso, as vítimas teriam um sistema rápido e eficiente para recorrerem em primeiro instante. Ademais, o Ministério da Justiça poderia criar delegacias e centros de investigação especializados em crimes cibernéticos, a fim de combater a lentidão dos processos, permitindo, então, que os transgressores da lei sejam punidos. Por fim, cabe a mídia promover campanhas socioeducativas na TV, com a finalidade de alertar a população quanto a reprodução de imagens e textos associados ao discurso de ódio e, com isso, reduzir a sua disseminação. Talvez, assim, a sociedade brasileira poderá chegar perto das convicções platônicas e, além disso, alcançar o bem-estar social.